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Mito da caverna invertido

 O mais recente filme de Woody Allen (Whatever Works) merece um título melhor em português. A expressão “tudo pode dar certo” enfatiza equivocadamente um otimismo de auto-ajuda, ao passo que a frase original faz referência a um quê de aleatoriedade, de imprevisível, que marca a vida de todos nós. “Qualquer coisa pode dar certo seria mais preciso, mas se o tamanho incomoda, poder-se-ia optar pelas breves, indolentes e diretas: “Tanto faz” ou “Que seja”.

 Whatever Works conta a história de Bóris Yelnikoff, um velho rabugento cuja rabugisse provém de uma comum mistura de intelectualidade e desdém. Seu paradoxal apego e desapego à racionalidade se explica por Boris se achar o único ser verdadeiramente lúcido de Manhattan ou, relembrando o desenho mais famoso de Saul Steinbeck, do mundo.

 

 O diretor escolheu uma metáfora bastante feliz para caracterizar a psique do protagonista. Ele, só ele, percebe que está sendo observado pela plateia; ao contrário dos seus amigos, ao contrário dos estranhos que o observam assustados, ele está ciente de que há um público assistindo a seus passos. Mas – veja a sacada – ele não percebe ser um ator interpretando um personagem escrito por… etc e tal.  Ao optar pela metalinguagem parcial, Woody evitou criar um protagonista onisciente, verdadeiramente superior; pelo contrário, Bóris parece-se mais com aqueles intelectuais que se julgam o representante direto dos deuses do conhecimento, quando não o próprio deus. Os amigos que o veem como um velho doido vaidoso que se hipervaloriza talvez não estejam tão errados.

 Se o filme, às vezes meio repetitivo para quem já conhece razoavelmente a carreira do diretor, tem algo de diferenciado, é justamente isso. Ele inverte o mito da caverna, de Platão. Lá, o sábio é quem escapa das sombrias ilusões e consegue enxergar a verdade; aqui o pretenso sábio é aquele que rompe a quarta parede e se dirige diretamente aos observadores. Sim, pretenso sábio, como ele próprio, aliás, nos confessa ao fim do filme, com aquela preciosa auto-ironia que tanto ajuda a enriquecer a inteligência e o humor. Ele se vira para nós e prega o discurso final, no qual parte de sua rabugisse intelectualoide é revisada: “Tanto faz. E que ninguém se engane, nem tudo depende da genialidade humana.  A maior parte de sua existência é mais sorte do que gostaria de admitir”. Repare, nesta última frase, que o protagonista não se inclui no discurso (terceira pessoa, em vez da primeira). Esse Bóris…

Mal servido

Sócrates me fez ir ao teatro. Pegar ônibus num dia quente e chuvoso. Ficar na fila mal organizada num dia quente e chuvoso. Tomar a suja chuva paulistana num dia quente e chuvoso. Mas Sócrates vale a pena. Assistir à dialética em ação – discussões, ideias em polvorosa – não abriria mão disso tudo. Foi isso, e não os comes e bebes, que me levou a ver a encenação de O Banquete pelo Teatro Oficina em fins de dezembro.

A decepção não poderia ser maior; a peça já começa concluída: os argumentos cederam lugar à pura exposição de um ponto de vista – o elogio ao amar, verbo intransitivo; não importa o quê, não importa a quem. Contra a conclusão em si, nada tenho, filosoficamente falando. O problema é chegar a ela sem o devido debate, a desejada discussão (Caricaturar o oponente como um fanático fundamentalista cristão – acreditem em mim, chegaram a esse nível – possui a mesma graça que as piadas em que os comunistas são retratados como comedores de criancinhas; esse tipo de humor rasteiro combina mais com a erística do que com a dialética).

 Moralmente falando, não vejo nada contra a excessiva exposição de nudez. Mas não posso concordar com quem vê nisso uma forma de contestação, um modo de sacudir o público. Talvez isso funcionasse se a plateia fosse constituída por velhotas saídas do convento, mas ao público de mente adolescente, já acostumado com novelas e zorras totais da vida, a nudez lhe serve mais de estímulo corpóreo que intelectual. Não por acaso, o vinho servido ao público é leve e suave, fácil de beber, muito adequado a paladares imaturos[1]. Se isso foi uma ironia proposital, ponto para o Zé Celso!

 Infelizmente, não deve ter sido. Infelizmente não conheci o Oficina da década de 1960, quando sua fama parece ter se construído / consolidado, mas a primeira impressão deste que aí está não poderia ser mais brochante.

 


[1] À parte de qualquer discussão artística, a Casa Valduga produz excelentes vinhos.