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Um dia na vida de um copo de whisky virgem, nas prateleiras da adega

            Era estranho, estar ali ao lado de seres tão parecidos mas ao mesmo tempo tão diferentes. A luz que refratava por todos eles sugeria uma pureza enganadora, uma lucidez nublada por preconceitos mal disfarçados. Era o único ali a sentir-se isolado? O silêncio e a indiferença incomodavam mais do que um resmungo articulado por esta ou aquela teoria. Mas não. Só, solitário; o silêncio.

            Antes de parar ali, antes de parar em qualquer canto, segundo ouvira de uma voz perdida em algum meandro da memória, fora diversos grãos que nem sempre estiveram juntos, mas livres, abandonados ao acaso e aos dissabores da maré. Um dia, porém, o bafo quente de algum deus uniu aqueles grãos todos numa espécie de goma plástica – ou, melhor dizendo: vítrea – dando-lhe a forma irregular que talvez tanto lhe incomodava. Suposições e certezas às vezes se confundem.

            Agora ali, olhando ao lado, percebia diversos seres semelhantes a si. Todos eles também formados a partir de diversos grãos fundidos numa mesma goma vítrea, todos eles criados pelo mesmo e divino bafo incandescente, mas ao mesmo tempo cada um deles quieto, indiferente ao outro. A saudade de uma voz que decerto nunca existiu lhe atiçava e consumia as esperanças. Tentava entender seus vizinhos, como cada um deles refletia a própria existência cilíndrica, a essência vitriolizada, o ser enquanto copo ou taça. Dizia-se que algum dia, todos eles retornariam ao pó, aos pequenos grãos de areia que se espalham pelas praias, pelos leitos ou mesmo pelo chão. Há também a hipótese da permanência, os vitrais, mas isso pouco lhe importava. O que fora ou o que seja lhe pareciam variações da mesma abstração, pois ali, ao lado e isolado de seus pares, sentia-se ímpar, ao lado de diversas criaturas tão ímpares quanto ele, criaturas que talvez tivessem a mesma inquietação, mas por algum motivo impossibilitadas de lhe estender a voz, todas fadadas ao mesmo silêncio.

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