Arquivo de Tag | relacionamentos

missiv…

[De uma folha amassada que eu encontrei na praia:]

     Ubatuba, 27 de julho de 2013.

     Cris, boa tarde, estou morrendo de saudades das suas tontices!

     Estou escrevendo de madrugada, mas sei que essa carta só vai chegar aí na terça. Provavelmente você vai lê-la depois da escola. Então: boa tarde para você e boa madrugada para mim.

     É engraçado isso. Esta folha de papel nos une; duas pessoas separadas por três dias e algumas centenas de quilômetros. Sim, eu sei que estive contigo agora há pouco no colégio, mas essa não era eu – quero dizer, eu que estou aqui escrevendo esta carta ainda não sou aquela que esteve contigo meia hora atrás na saída do colégio. Você deve me achar estranha, né?

     Mesmo na praia, em vez de me divertir com meus primos e primas, fiquei pensando em você. Fiquei com uma estranha vontade de não aproveitar o passeio, pois queria estar caminhando contigo no Ibirapuera, ouvindo música no seu quarto, falando sobre meninos ou coisas mais importantes.

     Queria que você visse como a Ilha Anchieta é bonita. Queria te assustar no passeio de barco. Queria brigar contigo por você não ter vindo passar a semana conosco…

     Minha mãe comentou comigo que a saudade é importante, pois ela faz com que a gente perceba o quanto nos importamos com as pessoas. Não sei por que ela tocou no assunto; não comentei nada com ela. As mães são estranhas, né? Eu acho que as saudades (eu prefiro usar essa palavra no plural, pois quando sinto falta de alguém, sinto falta por diversos motivos – eu não sinto saudade, eu sinto saudades!)… bom, como eu estava dizendo, eu acho que as saudades fazem a gente gostar ainda mais das pessoas que a gente quer muito bem.

     O barulho da areia se enroscando com as ondas, as galhos brincando de pega-pega com esse vento frio, tudo isso me deixa muito comovida. Essa sou eu hoje, sábado às três da manhã, querendo não dormir. Será que na terça também estarei assim ou voltarei a ser aquela menina chata que não te deixa em paz?

     Não reclame do tamanho da carta, tá? Já estou terminando. Vai lá, vai fazer tarefa, cultivar sua nerdice enrustida!

     Queria te tacar na areia,

     Com afeto,

     Fab.

Anúncios

Lombriga

Giulia G.S.A.

      Eu queria ser uma lombriga. Sei que falar algo assim e começar um texto com essas palavras pode assustar a maioria das pessoas, mas o fato é que eu gostaria de ser aquele animalzinho inconveniente! Para seguir com a minha linha de raciocínio precisamos dar um “flashback” até uma aula de biologia na qual eu estava sentada ao lado dele…

      Nessa aula aprendi que a lombriga causa a ascaridíase, que por sua vez nos deixa com dores, desnutrição e anemia. Ele se fixa no intestino delgado e ali se reproduz. Não foi isso que me chamou atenção, mas sim o que meu professor disse: “As lombrigas foram os primeiros seres a sentir as coisas, mas não possuem memória, portanto vocês nunca acharão um livro chamado ‘Memórias de uma lombriga’”. A partir daí tive o desejo de virar uma lombriga.

      Pense um pouco em nós, seres humanos, nojentos e amantes de corações partidos, nós sentimos tantas coisas ao mesmo tempo que naturalmente ficamos frustrados por não decifrarmos os nossos próprios sentimentos; falo isso por experiência própria. A lombriga sente exatamente a mesma coisa que nós: dor, felicidade, tristeza, amargura, amor, frustração, coração partido, raiva e tantas outras coisas. Mas ao contrário de nós, elas não se lembram de nada! É como se toda aquela felicidade fosse sentida pela primeira vez toda hora! Assim como a dor, a ansiedade, a tristeza etc.

      Mas melhor ainda é não sofrer por decepção, não sofrer por perda, não sofrer por separação e, principalmente, não sofrer por corações partidos. Já parou para pensar que as lembranças são as maiores causadoras de nossas dores? O mundo seria muito melhor se fôssemos todos lombrigas! Imagine o desgraçado, ingrato e cafajeste do seu namorado pedisse um tempo para pensar na relação, você simplesmente seguiria adiante em busca de prazeres que não geram angústia ou dor! Até mesmo a felicidade, quando se abriga na nossa memória, é uma companhia inoportuna. Mais incomoda que conforta.

      Feliz é a lombriga; sente, mas não se lembra.

 

Mariana

Mariana

Melissa K.T.

Era uma vez uma menina chamada Mariana. Ela era muito inteligente e muito esforçada, só tirava boas notas. Toda noite ela ligava o computador para falar com seus amigos e relaxar um pouco. Até que um dia ela encontrou um grupo de pessoas que adorava o mesmo programa de TV que ela. Mariana era uma menina muito tímida, mas atrás da tela do computador sentia que podia dizer o que quisesse. Ela passou a ficar cada vez mais tempo em frente ao computador para estar com seus novos amigos. Infelizmente, suas notas começaram a cair e, sem que ela percebesse, começou a se distanciar das pessoas à sua volta. Isso acontece com muitas pessoas. O computador trouxe para as pessoas uma nova forma de se relacionar. Mas será que isso é bom ou ruim?

Muitos dizem que é mais fácil se relacionar com os outros pelo computador. Afinal, na internet há anonimato e – ao contrário do que acontece na vida real – não há pessoas à sua volta que possam interferir. Na internet também é possível falar com várias pessoas ao mesmo tempo e ainda podemos conhecer gente de diferentes partes do mundo.

Porém é importante considerar o fato de que o mesmo anonimato que dá liberdade às pessoas também pode ser muito perigoso. Há aqueles que fazem amizade pela internet e combinem de se encontrar pessoalmente, sem pensar na hipótese de o amigo virtual ser outra pessoa na realidade. Também pode ser que o indivíduo se acostume apenas a conversar pelo computador e não aprenda a se comunicar pessoalmente. E, como na história, também pode acontecer de a pessoa acabar se afastando daqueles com os quais costumava se encontrar todos os dias. Com o avanço da tecnologia, algumas pessoas ficam conectadas o tempo todo como se vivesse uma realidade paralela.

A internet pode ser algo bom ou ruim, dependendo da forma como for usada. Não é bom usá-la de forma exagerada, mas ela pode ser usada como complemento para suas relações existentes fora do computador. É preciso ter bom senso e prestar atenção no que acontece à sua volta para não se tornar (ou melhor: deixar de ser) uma Mariana.

Memórias nunca morrem

Alice G.

      Júlio e Paula eram um casal como esses que a gente vê nas ruas todos os dias; sempre de mãos dadas, passos sincronizados: pé esquerdo, pé direito, esquerdo, direito… Mas Júlio sempre evitava ir a lugares de que Paula gostasse muito.

     Por exemplo, ela adorava uma lanchonete no centro da cidade, e por mais que passar perto dessa lanchonete fosse o caminho mais fácil para sua casa, Júlio contornava o quarteirão e nunca passava por ali. Paula adorava um escritor brasileiro, e Júlio se recusava a ler qualquer texto desse escritor. Ela adorava brigadeiros, Júlio os evitava a todo custo. Sim, eles estavam juntos, mas Júlio não queria fazer nada que pudesse deixar marcas profundas em seu coração. Quanto mais a amasse, mais iria sofrer no futuro – pensava.

     Um dia, como era de se esperar, eles terminaram. Júlio pensava que esquecer Paula seria fácil e que logo nem se lembraria de que ela fez parte de lembranças incríveis. Passando-se algumas semanas, o plano dele não tinha funcionado. Ele então percebeu: por mais que tentemos apagar nossas memórias, recordações não são deletadas. Elas estão sempre por aí, mesmo que às escondidas.

     Paula não se resumia a uma determinada lanchonete, a um escritor em específico ou a um doce apetitoso.

momento branco

manhã branca

peixe branco

uma

polegada branca

(Haroldo de Campos)

– A tela esconde ideias, lança nuvens, penumbras, terra escura sobre as palavras que queremos encontrar. Essa, neste momento, é a função da sua arte. Comunicar-se num mundo em que camadas de preconceito, intolerância e indiferença se colocam entre o eu e o tu seria o pecado mortal do artista consciente de sua arte. É vital que se diga a todos os ouvidos o ruído. Mais do que o silêncio, que sugere paz, tranquilidade, calma, o ruído estimula, excita e incomoda. A recusa é, de certa forma, uma espécie de afirmação. Dizer sim para o nosso tempo, sua complexidade, seus meandros, é balbuciar algo impronunciável, gemer uma interjeição não compreensível, sussurrar o inefável.

Ouvindo aquilo tudo como se ouvem antigos ecos nunca esquecidos, ela sorriu, admirando a energia que se desperdiçava com tanto empenho. Uma brisa tocou o seu rosto, harmonizando com o frescor do suco que o garçon havia acabado de trazer. Admirava as conversas; delas algo de grandioso sempre pode surgir – mas naquele momento ela queria mesmo era fruir o instante, sentir o vazio, como se o perfume daquele limão rosa, com suas camadas de açúcar e acidez, pudesse se fundir com a plenitude que só a quietude a dois pode trazer.

Encruzilhadas

   Aquele cheiro aguado antecipava o gosto-desgosto que estava por vir. Resolveu devolver o copo à mesa, na vã tentativa de se esquecer dos porquês que o levaram a ir àquele desconhecido bar na Consolação. A fumaça, visitante ilegal naquela paragem, lhe incomodava menos o olfato. Este era o preço, mas haveria mesmo uma recompensa? Logo iria saber; a imagem de Leine fazia-se notar na penumbra que iluminava o canto oposto do salão.

   “Os dias andam ásperos” – alguém falou, iniciando a conversa. “Ou talvez a aspereza pertença ao tato” – respondeu-se. E assim, aforismos seguidos de hipálages, ensaiou-se o diálogo.

*

   O sábado deixava o metrô das sete mais agradável. Sem aquelas pessoas comandadas pela agenda, pessoas sem finais de semana, pessoas sem ausências a serem preenchidas, era mais confortável abrigar-se ali. Mas, resquícios do cotidiano?, outros estranhos compartilhavam o espaço, invadiam-no, como se quisessem capturar um respingo de dignidade, algo que lhes desse sentido à vida mesquinha. Pobres coitados.

   Na verdade, não se importava com eles. Assim que a estação chegou, deixou-os no vagão, como se fossem não mais do que instrumentos para sua retórica, agora em busca de outro alvo, seja nas escadas-rolantes, na calçada, no bar – enfim, no bar. Ciente ou não, deu a seu rosto um ar de confiança pouco antes de avançar na fumarenta sala à qual se destinava. Lá estava ele com aquela cara de sempre, e agora também ela lá estava. Mais do que teses, ambos apreciavam antíteses, paradoxos, oximoros.

*

   Vadim levantara-se. Naquele boteco pseudonaif, só havia garçons na hora da gorjeta. Ri do modo como ele falava; aqueles trejeitos, longe de surpreender ou evocar uma nova masculinidade, mostrava o quanto ele ainda era pueril. Agora está lá falando com o suposto bartender, como se um dos dois entendesse qualquer coisa de bebidas. Garotos…

   Cá eu, sozinha, num hiato entre uma e outra relação, catando sobras de luz de uma penumbra qualquer, distraio-me com o jovem casal a meu lado. Ele, que pedira um copo de whisky para exibir maturidade – talvez a ele mesmo –, tenta disfarçar o suor das mãos. Ela, com seus gestos projetados, nem parece perceber o quanto é artificial. Mas, cada qual a seu modo, parece que o plano está dando certo. Ele a olha como a uma esfinge; ela sente que não mais o domina. Oaristos de um lado a outro. Em menos de cinco minutos, eles encontrarão seus caminhos. Mas não ficarão contentes com isso.