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Reflexos de uma realidade

Amanda Rossetto

Vive-se em uma época cinzenta, poluída de ambigüidades e incertezas. Prós, contras, preto, branco, tudo se dilui em um condensado de diferenças dando o tom dual que permeia a realidade. Auto-proclamados contadores da verdade difundem-se na malha social a inebriar a massa cinzenta da população. Porém, ao contraporem-se as certezas de dogmas opostos, aumenta-se a dúvida quanto à veracidade dos discursos propagados e muitos são levados a questionar qual, de fato, é a realidade.

A realidade é diversa. Deus pode ser Allá, ou inominável, ou inexistente. Apesar de parecerem contraditórias, a certeza monoteísta da existência de um único Deus (por uns) não afeta a veracidade da crença atéia em Sua não-existência (por outros). No universo pessoal, as próprias crenças são a realidade, chegando esse endemismo do real ao ponto de aparentemente desmentir a realidade, relativizando-a. É essa realidade subjetiva, que transporta, do psicológico à macro-realidade social, a própria versão dos fatos, a matriz dos princípios e, logo, da discórdia – sendo versão a palavra-chave da sentença.

A realidade é única. Ela corresponde ao conjunto de ações e reações em escala universal. Apesar de a realidade individual ser a verdade absoluta de cada um, os fatos ocorridos são a realidade comum a todos. Isso não torna o psicológico menos real a quem o experimenta, mas também não o torna realidade. Apenas faz dele uma versão dos acontecimentos, sem alterá-los. A ação sob o princípio da realidade subjetiva é o único modo de alterar a realidade concreta. Ainda assim o motivador do fato seria o psicológico, não o acontecimento em si.

A realidade é única, sua interpretação é inúmera. Sob vários prismas pode ser enxergado um fato – sob a luz da realidade a verdade se revela. Por vezes, verdades diferentes, diferentes imagens de um mesmo fato, se revelam a diferentes observadores. Contudo o fato é o mesmo, e a luz uma constante. Isso é a realidade. O restante é apenas seus reflexos.

Realidades Individuais

CMSK (cintiama@globo.com)

 

Dom Casmurro, obra de Machado de Assis, traz um dos mais famosos mistérios da literatura brasileira: o da traição, ou não, de Capitu, mulher do protagonista, com o melhor amigo deste, Escobar. Bentinho, amargando a certeza do adultério, conta-nos sua história tentando provar que tem razão. No entanto, a virtuosidade da escrita machadiana permite que o leitor desconfie dos argumentos que o narrador nos apresenta. As opiniões então se dividem: para alguns, houve adultério, para outros, não. Embora se trate de uma questão das mais relativas, para o personagem, a traição era real, não mera fantasia. É importante perceber que a “realidade individual” não é – para o indivíduo que a sente – uma mera ilusão, ainda que ela possa ser relativizada eventualmente.

 

A relativização é de fato uma idéia muito atraente. David Hume, filósofo do século XVIII, dizia que dois eventos semelhantes não produzem, necessariamente, os mesmos efeitos. Assim, por mais que algo seja tido como verdadeiro, isso não significa que ele será válido para sempre. Esse pensamento é bastante razoável. Por exemplo, o fato de uma bola cair ao ser solta do alto de um edifício não garante que ela sempre cairá – há a possibilidade, embora mínima, de algo mudar e a gravidade deixar de existir. E mesmo que haja cálculos demonstrando a validade de uma teoria, eles apenas se aplicam para o universo que existe agora. Contudo, é fato que, enquanto a queda dura, a gravidade é uma realidade, uma verdade absoluta para o instante em que ocorre. Mesmo assim, muitos podem pensar que a realidade então não passe de ilusão, uma vez que as verdades, mesmo quando “absolutas”, não são universais.

 

Cada pessoa sente e vive o mundo de uma forma muito particular, de modo que aquilo que é real e verdadeiro para alguns não obrigatoriamente o será para outros. É inerente ao homem imprimir emoções e julgamentos em tudo que lhe afeta e, portanto, que considera real. Assim, um fato, ao adquirir dimensão real para o indivíduo, torna-se propriedade de seu universo pessoal – aquilo que ele imprimiu no acontecimento diz respeito a ele próprio, de modo que a sua realidade é sempre o que se passa dentro dele mesmo. Além disso, é o que existe no interior do ser humano que determina seu modo de entender a realidade, o qual será “verdadeiro” e “absoluto”, enquanto for condizente com esse interior. Desse modo, realidade alguma é ilusão no sentido em que reflete os sentimentos e pensamentos que são reais e válidos para aquele que os possui.

 

Tudo o que se passa no universo interior, e mesmo exterior, de cada um está sempre mudando. Isso é, em parte, um dos motivos pelos quais a questão do adultério em Dom Casmurro é tão misteriosa e sedutora: cada vez que se lê o livro é possível interpretá-lo de uma maneira diferente, dependendo do estado do leitor. Mais ainda, cabe lembrar que, embora todas as interpretações possam ser relativizadas, é o próprio leitor que decide qual será a verdadeira – para ele e naquele momento.