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Notas sobre “A pele que habito”

 * Quando falta tempo e paciência, recorro-me às notas. Elas são duplamente vantajosas: destravam minha escrita e consomem pouco tempo dos meus três leitores;

* Não por outro motivo, cultivo aforismos e haiquases. O tempo escorre se não fixamos os olhos nele;

* Vamos então às notas de A pele que habito, mais recente filme de Pedro Almodóvar:

* Robert, o protagonista, tem sérios problemas com sua masculinidade;

* Ele, analisado como um macho padrão, sofre duas fortes derrotas sexuais (quando Vera, a mulher que ele está construindo para si, é deflorada por Zeca; quando a filha é seduzida por Vicente). Robert tenta equilibrar sua autoestima por meio de duas vitórias baseadas na força física, mas mesmo assim ele não consegue dar ordem a seu universo psíquico. Primeiro porque a derrota sexual importa mais*** que uma vitória baseada na força física – se não acredita em mim, pergunte a um macho padrão que ele confirmará. Segundo, não há como negar que suas vitórias se deram em condições em que não primaram pela equidade de condições: numa ele estava armado e, mesmo assim, alvejou o adversário pelas costas; na outra um capanga (ou ele próprio vestindo uma máscara) vale-se de um confronto desigual (van versus moto) e de uma espingarda com tranquilizante – ou seja, nos dois episódios, ele parte para um combate em que não haverá confronto;

* Antes disso, porém, Robert sofrera outra derrota sexual, quando a esposa o trai com Zeca. Dessa vez, porém, não há confronto entre protagonista e antagonista, pois Robert se preocupa em salvar a vida da esposa, que sofrera um acidente de carro que deixou seu corpo em chamas. Talvez possamos levantar a hipótese de que, ao manter sua esposa viva, Robert estivesse se vingando dela (como que uma pessoa que acabara de viver momentos tão calorosos poderia suportar os olhares repugnantes que os outros, e ele mesma, lhe lançariam?), mas creio que há análise mais aguda que esta;

* Robert, cirurgião plástico, só conseguia satisfazer as mulheres superficialmente;  

* Talvez, com esse ponto de partida, até seja possível traçarmos, entre Robert e seu irmão Zeca, um paralelo antitético. Afinal, enquanto um é masculinamente frágil, o outro é protomacho até em demasia; um cultivou-se com uma educação  formal e clássica, o outro sempre foi avesso a ordens e regras; um é delicado e racional, o outro bruto e explosivo. Seria belo se não fosse falso…

* Mais do que um par antitético, Robert e Zeca (nome e apelido também ajudam a sugerir essa falsa antítese) são variações de uma mesma matriz: ambos possuem problemas com a masculinidade (Quando se depara com Vera, Zeca não a seduz, simplesmente a obtém); ambos são intempestivos e rebeldes, para não dizer mimados; ambos, cada qual a seu modo, são filhos bastardos, ou seja, simbolicamente frutos de uma relação torta, quiça doentia (segundo avaliação a posteriori da própria madre);

* Se o tema do filme é a pele, ainda que óbvia, a ênfase nos tecidos e nas artes plásticas gerou-me prazer estético. A partir do momento em que se criou a cultura, ninguém mais conseguiu ficar nu;

* Como reforço imagético, em diversos momentos do filmes vemos referência a peles falsas: Zeca, como tigrão e como assaltante quase mascarado, as esculturas cujos rostos são cobertos por Vera, a bastardice, as drogas excitativas que Vicente toma antes de ir à festa;

* Além das doloridas derrotas sexuais, Robert tem mais uma, que anuncia a derrota final. Ele é intelectualmente desmascarado por seu amigo Fulgêncio, o qual consegue ler não só o todo de suas ações como também vislumbra-lhe os porquês. E mais uma vez Robert precisa recorrer a uma pistola (símbolo fálico não acidental) para simular uma nova falsa vitória – pouco antes, vemos, numa espécie de cena síntese, Robert, falsamente zen, tentando esculpir um bonsai. Todo bonsaísta sabe que a saúde do seu projeto depende de uma cuidadosa observação de como galhos e raízes vão crescendo; Robert deixou escapar um galho e uma raiz;

Daniel Piza, cujas leituras costumam ser bem mais apuradas que as de um Inácio Araújo, por exemplo, reclamou d”a demonstração inocente de confiança do médico”, no final do filme. Creio eu que essa escolha foi imprescindível para dar mais verossimilhança ao filme. Pensando na construção do protagonista, nos problemas que ele sempre teve com as mulheres, na sua necessidade de afirmação, o turning point da sua vida se lhe mostrou justamente quando ele pressentiu a possibilidade de finalmente conseguir confiar numa mulher, quando ele finalmente considerou a hipótese de enfim ser amado;

* Querendo ver aquilo que mais gostaria de ver, fechou os olhos.

 P.S.: Coincidência ou não, ontem – antes e depois do filme – estava lendo a quase autobiografia de Fernando Pessoa (de José Paulo Cavalcanti Filho). Talvez as máscaras sejam assunto para um novo post.

*** Corrigido após alerta do Bernardo. 🙂

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Melhor que Avatar

 É com muita alegria e até uma ponta de surpresa que deparo-me com um importante retorno às telas paulistanas: Oceanos, cujas imagens superam facilmente Avatar ou  Alice, as grandes decepções do ano. Oceanos é daqueles filmes que jamais desejaríamos ver em cópias piratas ou mesmo originais. Seu lugar é na telona. Não perca esta segunda oportunidade.

 Onde ver: http://guia1.folha.com.br/guia/cinema/documentario/953426/oceanos#onde

 Post antigo, com o “trailler”: https://mutuca.wordpress.com/2010/06/11/oceanos/

Retalhos

Visite sua memória: o primeiro dia letivo no início da finada década de 80, quando sua avó fazia questão de lhe acompanhar à escola, distante apenas quinze minutos de sua casa; as pescarias naquele riacho em que só se podia pegar alguma verminose; a horta do avô, na qual as plantas não tinham nomes nem função outra se não alimentar os porquinhos da índia; a primeira vinda a São Paulo, já para ficar, sozinho, inda imaturo, já meio perdido. Tudo bem que você não se identifique com essas imagens que sequer ganharam o registro de uma fotografia, mas pense nas suas; as recordações são uma colcha de retalhos que às vezes nos sugere ter sido construída por acaso, mas que sabemos – aos bem dotados de fósforo ao menos – possui fios e fios da uma coerência (não disse “harmonia”) às vezes inimaginável.

 Sim, essa metáfora não ganharia o primeiro prêmio de originalidade, mas isso não a torna menos verdadeira. Conforme envelhecemos aprendemos (será?) que a vida é perecível, passamos (sempre) a relembrar o que se passou e (às vezes) aprendemos com isso. A memória é uma bela interlocutora, tanto pelo que nos traz de alegria, mas também pelo que nos traz de amargor; você sabe que a vida não é guiada pelos livros de auto-ajuda, ainda que haja neles uma coisa ou outra que lhe possa ser útil. É mais ou menos sobre isso (a memória, não a auto-ajuda) que trata Retalhos, ótima HQ de Craig Thompson .

 Logo nas primeiras páginas ficamos sabendo que se trata de uma obra memorialística, o que não me é muito animador – talvez por ter pensado encontrar algo como A garota das laranjas ou  O vendedor de histórias, dois livros chochos do famoso Jostein Gaarder (aquele de O mundo de Sofia e O dia do curinga) em que nos deparamos com narradores egocêntricos que não sustentam a própria prepotência. Felizmente, eu estava errado.

 Retalhos, como o nome sugere, nos apresenta a inúmeros episódios da vida de Craig. O livro todo é feito de tensões: do seu relacionamento com o irmão, provamos da doçura lúdica, mas também do acre sabor da violência a que ambos são submetidos pelo baby sitter ou pelos colegas de escola (lembre-se de que bullying só foi reconhecido como problema ultimamente; quando eu era criança, os fracos optávamos por suportar passivamente ou por sermos taxados de afeminados, caso tentássemos reclamar);

do convívio com os pais, vemos como ternura e brutalidade ecoam de uma autoridade que nem sempre se distingue do autoritarismo; da vida social, o eterno conflito entre o indivíduo introspectivo e a coletividade acéfala;

da vida amorosa, a tensão entre desejo e castidade.  

 

  Tudo isso parece ter brotado de sua formação cristã – corrijo-me: tudo isso parece equacionado pela particular postura cristã com que ele vê o mundo a sua volta. A família de Craig é cristã, Craig é cristão, mas ele não parece sublinhar a conduta dos pais, do pastor ou de outros fiéis. Na verdade, mesmo na religião, ele se sente isolado, inseguro.

 Inseguro – convém analisar essa palavra. Craig sempre foi um jovem frágil, daqueles a quem uma força interior é imprescindível para suportar a desordenança do mundo. No entanto, ao contrário dos depressivos, ele percebe a importância de criar – a partir do próprio eu – uma nova ordem, um novo modo de encaixar-se no volúvel e labiríntico espaço. Muito bonito e significativo é quando ele queima seus desenhos, desapegando-se de um passado que urge ser deixado para trás.

  Hoje, olhando para trás, percebemos que pequenos atos, equivocados até, certas dores, que certamente gostaríamos de ter evitado, ajudaram a criar o indivíduo em que nos tornamos. Sim, quando olhamos para trás, toda aquela aleatoriedade, todo aquele caos de diferentes tecidos e texturas, toda a nossa vida possui um fio aparentemente desordenado que só ganha sentido agora, depois de pronto. Mas não se alegre muito. Ainda estamos a costurar; há mais retalhos pela frente.

 

Escola de Intervalos

 

Uma escola para a vida, de Muriel Spark, é um livro pequeno e ágil, daqueles que conseguimos terminar numa madrugada de insônia. O enredo é simples: Rowland Mahler e sua esposa Nina Parker dirigem o Colégio Sunrise, uma itinerante finishing school, pequena escola elitista onde nove jovens recém-saídos do colegial aprimoram-se nas mais diversas artes (moda, boas maneiras, culinária, decoração, redação, entre outras perfumarias…) antes de seguirem para uma faculdade. De acordo com uma resenha saída na época de lançamento do livro, 2005, trata-se de uma história de dor-de-cotovelo literário. Mas não é bem isso.

A mais óbvia – mas não a única nem a principal – das ironias do livro é apresentada rapidamente: Rowland, o responsável pelas aulas de redação criativa, está sofrendo de um bloqueio criativo, que o impede de dar sequência a um livro que vai se arrastando ao longo da narrativa. Para piorar, um de seus alunos, Chris Wiley, de apenas dezessete anos, está escrevendo um inovador romance sobre Mary, rainha da Escócia, acusada de assassinar seu marido. Inocente? Culpada? A esse enigma sem solução, o jovem estudante decide apresentar uma nova teoria, cujos detalhes não interessam a esta resenha. Pouco a pouco, Rowland sentirá ciúmes do seu pupilo. Peraí! Eu disse “pouco a pouco” e não “sem mais nem menos”. Vamos aos motivos:

Poderia dizer que Chris é um jovem muito pretensioso – mas isso por si só talvez nem seja um defeito dos mais graves; poderia dizer que Chris possui uma autoconfiança extrema – mas isso também não parece ser um crime capital. No entanto, pegue essas duas características e some a uma ineficiente autocrítica – pronto! Temos um típico adolescente egocêntrico, daqueles que julgam ter o rei na barriga.

Rowland, dominado pelo ciúme, não percebe nada disso. Para ele, Chris é um jovem talentoso que irá vencer a corrida e publicar um livro de sucesso antes dele, o professor. Por despeito, ele tenta se convencer de que o garoto nada mais é do que um escritor imaturo, cujas hipóteses ousadas revelam apenas desconhecimento da história propriamente dita, cujas opções formais são fruto menos de um inovador senso estético do que de um desleixo típico da idade. Mas, corroído pela inveja, ele não consegue se persuadir; o garoto é mesmo um artista prematuro.

Chris parece ser bem sucedido em todos os aspectos. Sua mãe e seu tio, os responsáveis por sua educação, não se opuseram a que ele fosse estudar fora de casa, numa escola liberal e flexível que lhe daria total liberdade e sossego para que ele escrevesse seu romance em paz. Além disso, ele curte um romance com Célestine, jovem cozinheira da escola. Agora, deixemos as aparências de lado: primeiro, o livro insinua que os responsáveis por Chris mantêm uma relação incestuosa, daí o interesse em cultivá-lo longe de casa a maior parte do tempo; segundo, só há dois alunos homens na escola, o outro, Lionel Haas, além de ser mais inteligente, flerta com a moça mais culta da escola, Lisa Orlando, a qual se tornará professora de Psicologia em Southampton. Não há como negar: sua liberdade e seu charme só se destacam quando lemos com desatenção.

Sunrise é um escola de intervalos, uma espécie de lugar-instante extirpados do tempo, um ponto crucial para a transformação de seus personagens. Nina percebe que seu casamento se reduziu à sociedade que ela mantém com Rowland. Não há discurso indireto livre que não revele seu desejo de dar um pé na bunda do marido. Este, por sua vez, sente-se extremamente incomodado por Chris, mas não consegue expulsá-lo de sua vida. E Chris, mesmo sabendo do ciúme doentio que o ronda, sequer pensa na possibilidade de sair da escola. Desvendemos essa curiosa relação.

Chris e Rowland, apesar dos pesares, dependem um do outro. Nenhum deles sabe, mas se tornou fonte inspiradora para o romance do parceiro-adversário. Rownland romanceia sua própria experiência didática; Chris inspira-se nos ciúmes de seu professor. Um mais hipócrita que o outro.

O jornalista Daniel Piza, autor da resenha a que eu me referi lá em cima, quis ver a si próprio nessa história. De acordo com ele, Rowland “parece até um intelectual brasileiro, sempre com dor-de-cotovelo dos que têm mais talento e juventude”. Além da generalização tipicamente mal colocada, é impossível não perceber a implícita autorreferência ao jovem talentoso. Menos, por favor. Sem contar que Chris, ao contrário do que o resenhista insinua, não se dá melhor que Rowland. A verdade é que ambos brigam, ambos escrevem seus livros (Chris torna-se um autor “legível”, sucumbindo àquela despeitada, mas certeira previsão a que me referi no quarto parágrafo), ambos se reencontram, fazem as pazes, tornam-se sócios e concretizam as apostas de todos os adultos que acompanhavam o caso: tornam-se um casal.

Talvez vejam no desfecho certa homofobia (por que os gays são desajustados?). Bobagem. Todos os personagens adultos da novela são desajustados que buscam se ajustar. O livro não trata apenas de um mero ciúme, mas da paixão em suas mais diversas e doentias vertentes. Se não entendermos assim, a novela se torna fraca, mal escrita. O jovem e supostamente talentoso aluno está muito longe de ser um modelo, um ideal; na verdade ele é banal e medíocre como a maioria daqueles que, na falta de um senso crítico apurado, deixa-se enganar por um ego gigantesco.

 

P.S.: O Piza, que escreve muito bem e que já fez ótimas resenhas, nessa comete alguns deslizes, além dos já citados: “o solitário Tilly” na verdade é uma moça, e é ela quem engravida, não a bobinha da Mary Foot. Mas não posso culpá-lo. Até o tradutor, Domingos Demasi confunde-se com o gênero dos personagens, ora tratando a jovem Pansy por homem (p. 6), ora por mulher (p. 120). Fora os trechos de construção ambígua.

Garrincha, em duas versões

 Pouco antes de começarem as férias, li Estrela solitária: um brasileiro chamado Garrincha, de Ruy Castro. A biografia daquele que talvez tenha sido o o segundo maior jogador do futebol brasileiro é impecável. Ou no mínimo muito além de satisfatória, até porque nos imprime um novo patamar de qualidade, tornando-nos mais exigentes.

  O livro começa contando a provável origem dos antepassados indígenas do jogador. Curiosidades como o cachimbo, uma espécie de panaceia caseira, remédio capaz de curar todos os males: “adultos e crianças o tomavam como purgante, xarope, fortificante e para combater gripes, lombrigas, coqueluche, asma e dor de dentes. Aos bebês era dado até como tranquilizante: uma ou duas colheres antes de dormir, para não terem sonhos agitados.” De que era feito essa maravilha? “Cachaça com mel de abelhas e canela em pau, posta para curtir numa garrafa envolta em cortiça e pendurada numa viga do teto”. Esquisitices como o indivíduo vingar-se de uma pedra, na qual tropeçara, devolvendo-lhe a dor à custa de dentadas. Até nos esquecemos de que o livro fala de quem se fala. Mas Ruy recuperará esses dados mais adiante, seja para tratar do permanente alcolismo ou da incrível simplicidade (não confunda com ingenuidade) do craque.

 Depois somos levados a conhecer o pai da criatura, Amaro, de quem o filho herdará o incrível apetite, por bebidas e por mulheres, a consequente indigestão que a ordem e o compromisso lhe proporcionava.

 Somando os dos últimos parágrafos, pode-se pensar que Ruy transcreve uma receita determinista: Garrincha foi o que foi por ter os antepassados que teve, por viver em meio à cultura em que vivia. Nada disso! Também somos apresentados a seu tio homônimo (Manuel; Garrincha só houve um) que, desafiando a tendência da família, se é que se pode usar tal termo, constrói uma vida de lutas e conquistas, sempre ao lado do esforço, da ordem, da constância. Fora isso, vemos que, se é verdade que o Botafogo pode ter lhe faltado com apoio em momentos capitais, é mais verdade ainda que sempre houve uma ou várias mãos estendidas a Garrincha, prontas a lhe socorrer um sem número de vezes. Ele, no entanto, fingiu não perceber, optando por uma autocomiseração que se tornou cada vez mais frequente de 1965/70 para frente.

 A tragédia individual do artista foi também familiar. Sobre sua casa em Pau Grande, a descrição (pp. 270-273) chega a provocar nojo. Uma amostra: “A imundície da casa horrorizou Elza. Havia objetos que pareciam caídos há meses no chão. As camas davam a impressão de não serem feitas nunca. Os colchões listrados, rotos e com mau cheiro, não tinham nada por cima. Sapatos e chinelos era atirados para baixo das camas, mas os exalantes urinois estavam à vista. / O banheiro, de cerca de quatro metros quadrados, era entulhado de gaiolas, além do poleiro do papagaio. O chão era um tapete de alpiste e cocô de passarinho. A pia era coberta de limo. O vaso não tinha tábua“. Sobre sua primeira mulher, Nair, sentimos um misto de pena e repugância: tamanha ignorância justifica ignorância tamanha? Não contarei aqui os detalhes de como ela foi tantas vezes enganada por seu “adevogado” (ele merece tal grafia) Dirceu Rodrigues Mendes.

 Felizmente, para Garrincha houve Elza. Mas, infelizmente, por mais que insistisse, nem Elza foi capaz de mudá-lo. Se o alcolismo foi a doença que lhe privou de viver a vida que ele tanto fez por merecer, ela não nascera sozinha como aqueles cânceres de pulmão que acometem os não fumantes; ele também tinha sua parcela de culpa, ainda que não a reconhecesse ou ainda que não se esforçasse o suficiente para combatê-la.

 Mas o livro também tem seus momentos felizes. A descrição dos primeiros jogos de Garrincha em Pau Grande, seus primeiros anos no Botafogo, as duas Copas do Mundo que ele conquistou, tudo isso nos faz ver por que ele merece a fama que sobreviveu à sua morte prematura (ou perlongada, considerando-se os hábitos insalubres que ele alimentou durante décadas) em 1983. É um livro de leitura rápida, ágil, dinâmica e fluente, comos os dribles do Mané.

 Nada disso, porém, pode ser dito do filme Garrincha: a estrela solirária (dirigido por Milton Alencar, estrelado por André Gonçalves). Há nele erros toscos como, numa cena, Garrincha, recém contratado pelo Botafogo,  anunciar que sua esposa está esperando um filho, e na cena seguinte, no mesmo ano, no mesmo mês, ela aparecer com três meninas (duas às mãos, uma à barriga).  Mas veja bem! – diria um defensor do filme – em 1954, Garrincha já estava para ter sua terceira filha com Nair. Pode ser, mas ele chegou ao Botafogo um ano antes. Licença poética? Eu não caio nessa.

 Outro erro tosco, talvez ainda mais grave, ocorre quando o filme sugere que Elza deixara Garrincha após saber que ele já tinha um filho homem com Iraci. De acordo com Ruy Castro, a separação é motivada por Garrincha não ter cumprido a promessa de parar de beber caso Elza lhe gerasse um filho; e ele não só  continuou a beber, como ainda punha em risco a saúde da criança. E, como se não bastasse, numa briga ele chegou a dar pontapés na criola – como ele a chamava carinhosamente. Quem vê o filme tem a impressão de que Elza o abandonara por mera vaidade.

 E o erro dos erros. Ao contrário do livro, em que a história é contada em terceira pessoa; no filme, o diretor opta pela primeira: é Garrincha que conta sua história, com uma quase onisciência que provavelmente ele nunca teve em vida. Soa completamente inverossímil que ele ecoe as reflexões que permeiam o filme. Veja bem: uma coisa é o Ruy traçar análises e reflexões sobre o papel que Garrinha representou, outra é o próprio Garrincha conseguir analisar-se num contexto amplo que sempre lhe escapou. Quem leu a biografia certamente sentiu-se ofendido pelo filme. Se você, caro leitor, não concorda com o que eu disse, ao menos concordará que as enunciações “poéticas” da narração não combinam em nada com o jogador.

 Perto disso, outros problemas são menores: o filme insiste abusivamente com as cenas de sexo, dando pouca ênfase ao futebol (sequer percebemos a importância do Garrincha na Copa de 58; sua última grande partida, aquela final do Campeonato Carioca de 63 contra o Flamengo, escapa rapidamente dos nossos olhos).

 Há mais, muito mais do que reclamar, mas como aquelas partidas chatas, monótonas, de falso pragmatismo, quanto antes acabam, melhor.

Onde andará Dulce Veiga?

 Não mais nos cinemas, não ainda nas locadoras, só restou a net. Depois de um ano procurando, eis que encontrei o filme, por preciosa indicação do Carlos Reinchenbach.

 OADV? (adaptação de um pequeno romance de Caio Fernando Abreu, dirigido por Guilherme de Almeida Prado) começa com uma pictorial e delirante cena em que Caio, um escritor anônimo e falido, discute com uma personagem da sua imaginação. É um belo cartão de visitas, visto que a ambiguidade realidade-delírio permeará boa parte do filme. Logo em seguida, vemos o escritor pé rapado sendo contratado como repórter num jornalzinho da cidade – o que significa, num determinado aspecto, vender a alma literária; visto que seus escritos devem obedecer às opiniões do jornal. Começo kafkiano e, como tal, nada animador para o protagonista, o qual se vê obrigado a entrevistar (para depois, obrigatoriamente, elogiar) a cantora e líder e estrela da banda Márcia Felácio (isso mesmo) e as vaginas dentadas (acredite!). Eis que começa a trama.

 Caio chega ao galpão onde aparentemente as meninas gravam um clipe. Se aquela música barulhenta e quase inaudível por trás dos ruídos traz a nós telespectadores a vontade de sermos surdos, a Caio trouxe a lembrança – corrijo: a recordação de acordes há muito (uma década, no mínimo) desaparecidos. Sim, aquela música (sic) era a regravação de um sucesso de Dulce Veiga, importante artista há muito desaparecida da mídia. Não fora mera coincidência, a garotinha loira (Carolina Dieckmann) é filha da marilyanamente loira Dulce Veiga – tentativa óbvia de criar uma intersecção entre a tara do protagonista e do telespectador; para quem aprecia a cereja do bolo, funcionou perfeitamente.

  Num detalhe narrativo muito bem construído, notamos que Caio fica curioso em saber o paradeiro de sua musa, no entanto – eis uma das chaves do filme – quem decide que ele deve investigar o paradeiro da cantora não é ele, mas a direção do jornal – que no momento mostra-se como um ser abstrato, representado pelo editor chefe (Cacá Rosset). E é isso que ele faz. Procurando pistas, Caio descobre peças de um quebra-cabeça que ele não consegue montar. Primeiro, Dulce Veiga desaparece durante as filmagens de Metaphora (sugestivo, não?), filme de suspense, cena decisiva e aparentemente clichê: Dulce está numa grande e (conforável? opressiva?) segura casa, quando ela ouve um uivo ameaçador, um uivo que destoa do ambiente em que ela se encontra. Como toda mocinha de filme de suspense, Dulce contraria nosso desejo precavido e conservador, ela caminha em direção à floresta, ao desconhecido. Ela desaparece. Outras peças:

 Patrícia, a “bateirista-relações públicas-namorada” da Márcia (Quem é Márcia? A filha da Dulce Veiga, a cantora daquele conjunto de nome obsceno. Ah…), é a filha rebelde de Lyla Van (Christianne Torloni), uma coroa, porém enxuta atriz que herdara  o papel principal e a suposta consequente fama que Dulce deixara para trás. Alberto Veiga (Oscar Magrini), o marido mais homo que bi, ex-diretor de cinema, atual diretor de teatro, era amante de Raudério, o suposto pai da filha de Dulce Veiga –  suposto pois, descobriremos adiante, o pai verdadeiro é Rafic (Nuno Leal Maia), o dono do jornal – sim!, ele que indiretamente incitara Caio a procurar a desaparecida Dulce – confuso, não?

 Pois é assim, tateando informações desencontradas (ou arranjadas), que Caio segue em busca de sua musa. O verbo não poderia ser outro: Caio tateia um universo que ele não consegue compreender – a nós, telespectadores, isso se revela por meio das cores saturadas que imprimem às imagens um tom de ambiguidade e fugacidade. Ótimo exemplo são as recorrentes imagens em que alguém aparece apontando a arma para o protagonista (culpa? autocomiseração?) ou aquelas em que vemos Márcia, ainda criança, surgir nas recordações de Caio. Aliás, não pense que a garotinha seja um toque de inocência e ingenuidade. Temos a profunda impressão de que aquela menina sabe muito mais do que o protagonista e nós sabemos.

 E aqui chego à revelação final. Se você prefere ver o filme antes que eu conte o final, agora é o momento de dar um até logo.

 Nenhuma pessoa pode dar a Caio as respostas que ele procura. Não que a ignorância paire sobre todos, mas ele logo percebe que ninguém é confiável (Neste aspecto, ele é muito mais convincente que os protagonistas de Roman Polanski. Quem não teve vontade de pular no pescoço da Rosemary, tamanha a demora dela em desconfiar das pessoas a seu redor?). A única pessoa que pode lhe dar as respostas é justamente Dulce Veiga. E ele a encontra. Mas ela não lhe dá as respostas. Vontade de matá-la? Sim, claro, mas o que fazer? A resposta parece óbvia, por isso a importâcia de ver o filme, sentir o clima que uma mera resenha não pode alcançar: Dulce Veiga não existe.

 Como assim? Não existe apenas uma Dulce Veiga. Há aquela coroa, ainda bonita, mas coroa, que ele acabara de encontrar na Amazônia, longe de tudo, longe de todos, mas perto de si, perto do seu canto (habilmente ambíguo). Há a Dulce Veiga que a mídia produziu, que o público conheceu, de que o público aprendeu a gostar, de que o público se esqueceu. Esta é a Dulce que ele tanto procurou, mas foi aquela que ele conseguiu encontrar. No fim ele perde. Quem ganha com isso somos nós. É Dulce agreste quem lhe explica o sentido simbólico da metáfora do Metaphora: a mocinha que invade o desconhecido da mata deixando o comodismo caseiro para trás (pensando assim, vemos que os filmes de suspense podem ser um tanto quanto caretas, não?).

 A Amazônia foi-lhes a libertação. Sim, para ele também, pois ao perder a imagem idealizada de Dulce (reflexo da má compreensão de seus próprios anseios), ele passa a reconhecer em si o objeto da busca. Dulce Veiga, a procurada, é o próprio Caio, ou a projeção feminina do seu próprio eu (não por acaso a desconfiança de uma homossexualidade mal enrustida, não por acaso a peruca loira que ele usa não só para enganar a polícia). Encontrá-la equivale a encontrar a si próprio. Talvez o objeto que admiramos valha mais por aquilo que pensamos dele do que por aquilo que ele realmente é. Se for o caso, vale a licença poética: Como é bonito vê-lo cantar no final do filme. O próprio ritmo da música, intermediário entre o tom calmo e sereno de Dulce e o ágil e agitado de Márcia, parece esboçar o que é o Caio, ou melhor: para onde ele quer ir, ou melhor: quais são os primeiros passos de uma vida que começa ali, naquela melodia cujo fim está além do saber.

P.S.: Minha esposa reclama que eu sequer mencionei a relação entre Caio e Márcia. Ela observa algo que eu considero muito revelador: Márcia não é apenas um simulacro rejuvenescido e – quiçá – melhorado de Dulce. Ela, sendo bissexual, é o “homem” dos sonhos de Caio (assim a jovem interpretou o desejo do rapaz). Também é possível que alguém reclame da licença poética de que me vali para alterar o final do filme. Poxa! Deixa, vai! No livro, ele canta sozinho. O amadurecimento é algo solitário.

Mary e Max

 Mary e Max é uma bonita animação que conta o convívio epistolar de uma jovem garota australiana e um problemático judeu novaiorquino, ela com oito, ele com quarenta e quatro anos. Ele um aspie, ela uma criança, cada qual cultivando seus grilos solitariamente até que, num lance de sorte, eles começam a troca de cartas que duraria pouco mais de uma década.

 Que diferença faz uma década? Ela deixará de ser uma criança insegura e se tornará uma jovem e experimentada adulta, ainda que não plenamente amadurecida (e quem é plenamente maduro?); ele continuará engordando e envelhecendo, mas até mesmo para os velhos o tempo passa, trazendo-lhes novas rugas e experiências. Nesse ponto o expectador talvez se sinta convidado a relembrar a última década e a valorizar mais a que está por vir – ou talvez eu tenha me sentido assim por a idade e as doenças estarem mais íntimas de mim ultimamente, pouco importa. O certo é que a vida, com seus amargores e imperfeições, também pode ser doce como uma pitanga. E por isso, por nos fazer sorrir e sofrer, o filme é tão cativante. Não, ele não é leve como O pequeno Nicolau, nem alto astral como Harold and Maude (traduzido no Brasil como: Ensina-me a viver), mas é mais tocante que ambos.

 Agradou-me, por exemplo, a grande diferença de linguagem e símbolos  articulando os diálogos. O universo mental da criança tanto quanto o universo mental do velho soam-nos estranhos, mas são apenas distantes, afastados do nosso dia a dia, às vezes pragmático demais.

 Àqueles que pensam que um desenhinho com menininha e velhinho trocando cartas seja leve e vazio como uma seção da tarde essebetiana, prepare-se, pois o filme não se submete a concessões primárias (aliás, o ator que dubla o velho, Phillip Seymour Hoffman, parece ter trazido um pouco do humor indecente do Truman Capote para a animação). Se você quer um filminho que lhe faça rir, anestesiando o cérebro, esqueça! Este provoca um riso daqueles que demandam consolo.