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Frankenstein: uma história de Mary Shelley, contada por Ruy Castro – Roteiro de leitura.

         Quase sempre um livro conta mais de uma história. A mais evidente de todas é aquela que se pode resumir no enredo, aquela que aparece nas sinopses mais preguiçosas. Há também fragmentos de histórias que o autor coloca aqui e ali talvez para dialogar com o leitor mais atento ou curioso. Sempre quando leio, gosto de procurar no enredo (ou por trás dele) pistas das histórias que o leitor quer que encontremos. Sim, eu sei que há algo de infantil nisso que estou escrevendo. Não há como provar que isso que eu chamo de pistas tenham sido usadas de modo intencional. Quer saber? Pouco importa. O barato da literatura (e também de outras obras de arte) é que ela nos permite análises e interpretações diversas (umas mais outras menos pertinentes, concordo). E, para mim, uma tentativa de interpretação, ainda que equivocada, é muito melhor do que aquela leitura passiva, de quem não se entusiasma com a possibilidade de sentir os sabores (às vezes acres) que a leitura nos proporciona.

         Se estiver a fim, aproveite o roteiro:

  1. Quem eram os alquimistas? Por que Victor Frankenstein os admirava?
  2. Qual era a grande ambição de Victor?
  3. Quais sacrifícios Victor fez para perseguir seus sonhos?
  4. Com base na p. 15 (e na história como um todo), faça um pequeno texto comentando a relação entre razão e loucura. Se tiver interesse em aprofundar suas reflexões, sugiro os filmes Um estranho no ninho, de Milos Forman (a história de um hospício administrado com racionalismo e mão de ferro) e Homo sapiens: 1900, de Peter Cohen (sobre como a Ciência foi usada para legitimar preconceitos e genocídios).
  5. Em que momento, Victor se compara a Deus? Pesquise histórias similares, como “a torre de Babel”, “o mito de Ícaro”, “Prometeu Acorrentado”.
  6. De acordo com Victor, uma descoberta científica é feita por um único indivíduo? Justifique.
  7. Victor assume que, em nome da ciência, ele cometeu crimes, praticou atos bárbaros, até mesmo desumanos. Pesquise exemplos atuais de atos bárbaros praticados pela ciência, identificando aqueles que você considera justificáveis e aqueles que você considera lastimáveis. (De certa forma, os itens a seguir são uma paráfrase deste)
  8. Até que ponto a evolução da ciência é uma boa desculpa para cometermos crimes?
  9. Quais sacrifícios devemos fazer em nome da ciência?
  10. Por que Victor não nos conta como conseguiu dar vida ao monstro?
  11. Por que Mary Shelley, a autora do livro, não nos conta como Victor conseguiu dar vida ao monstro? (note que esta pergunta é bastante diferente da anterior)
  12. Que tipos de lições a morte de William poderia dar a Victor?
  13. No livro há muitas hipérboles (Figura de linguagem marcada pelo exagero. Por exemplo: “Estou morto de fome…”, “Eu comeria até explodir!”, “Eu atravessaria o oceano a nado por um prato de comida”). Você seria capaz de identificar três usos dessa figura? Na sua opinião, qual é a função da hipérbole na história? Você consegue imaginar outros usos / outras funções para a hipérbole?
  14. Em diversos momentos da história, a natureza parece refletir os sentimentos das personagens. Localize três trechos em que isso acontece. Qual é a função desse recurso na história?  Você consegue imaginar outros usos / outras funções para esse recurso?
  15. No primeiro encontro entre os dois, o monstro censura Victor. Por que ele faz isso?
  16. Como o livro explica a inteligência do monstro?
  17. Cite alguns exemplos da inteligência e da sensibilidade do monstro.
  18. “Que estranho, pensei, a mesma causa produzir efeitos tão diferentes!”. Nesse trecho, o monstro está refletindo. Essa passagem deveria fazer com que você se lembrasse de um outro personagem monstruoso que frequentemente ficava refletindo. Que personagem é esse?
  19. O monstro, ao contrário do que costumamos esperar de um monstro, aparenta possuir uma sensibilidade lírica (poética). Relate o episódio em que ele quase chora de emoção.
  20. O que a narrativa do monstro nos revela a respeito da sua índole?
  21. Reflita: o monstro é de fato um monstro?
  22. Pesquise: que revolução é essa que aconteceu na França e foi responsável pelo exílio da família (p. 64)?
  23. O que o monstro aprende com o livro As ruínas dos impérios (Les Ruines, ou méditations sur les révolutions des empires), do Conde de Volney?
  24. “Quem era eu? Ou o que era eu?” (p. 75). Explique a diferença entre as duas perguntas do monstro.
  25. No item anterior, percebemos que as perguntas possuem um tom existencialista. O mesmo teor é verificado nas inquietações de Hentzau (A Maldição da Pedra)? Explique as semelhanças e as diferenças entre esses dois personagens.
  26. As leituras do monstro talvez tenham um significado simbólico. Com base na narrativa do monstro, com base na aula do dia 21 de fevereiro, com base na sua experiência de leitor, responda: qual é a função (ou quais são as funções) da literatura?
  27. Releia a p. 83 e responda: qual pode ser um dos sentidos simbólicos de o monstro não possuir um nome?
  28. O que motivou o monstro a mudar de índole?
  29. O que o monstro pede a Victor?
  30. Na passagem da página 95 para 96, somos informados que o amor é o único sentimento capaz de eliminar a crueldade do monstro. Você consegue pensar em outras histórias (podem ser livros ou filmes) que valorizam este sentimento de modo similar?
  31. O que levou Victor a romper o pacto com o monstro?
  32. “Em seu rosto, vi a expressão da malícia e da traição” (p. 102) Explique por que o trecho anterior não pode ser considerado uma prova de que o monstro fosse malicioso ou traiçoeiro.
  33. Por que o monstro, em vez de desaparecer, deixou pistas para que Victor o perseguisse?

Garrincha, em duas versões

 Pouco antes de começarem as férias, li Estrela solitária: um brasileiro chamado Garrincha, de Ruy Castro. A biografia daquele que talvez tenha sido o o segundo maior jogador do futebol brasileiro é impecável. Ou no mínimo muito além de satisfatória, até porque nos imprime um novo patamar de qualidade, tornando-nos mais exigentes.

  O livro começa contando a provável origem dos antepassados indígenas do jogador. Curiosidades como o cachimbo, uma espécie de panaceia caseira, remédio capaz de curar todos os males: “adultos e crianças o tomavam como purgante, xarope, fortificante e para combater gripes, lombrigas, coqueluche, asma e dor de dentes. Aos bebês era dado até como tranquilizante: uma ou duas colheres antes de dormir, para não terem sonhos agitados.” De que era feito essa maravilha? “Cachaça com mel de abelhas e canela em pau, posta para curtir numa garrafa envolta em cortiça e pendurada numa viga do teto”. Esquisitices como o indivíduo vingar-se de uma pedra, na qual tropeçara, devolvendo-lhe a dor à custa de dentadas. Até nos esquecemos de que o livro fala de quem se fala. Mas Ruy recuperará esses dados mais adiante, seja para tratar do permanente alcolismo ou da incrível simplicidade (não confunda com ingenuidade) do craque.

 Depois somos levados a conhecer o pai da criatura, Amaro, de quem o filho herdará o incrível apetite, por bebidas e por mulheres, a consequente indigestão que a ordem e o compromisso lhe proporcionava.

 Somando os dos últimos parágrafos, pode-se pensar que Ruy transcreve uma receita determinista: Garrincha foi o que foi por ter os antepassados que teve, por viver em meio à cultura em que vivia. Nada disso! Também somos apresentados a seu tio homônimo (Manuel; Garrincha só houve um) que, desafiando a tendência da família, se é que se pode usar tal termo, constrói uma vida de lutas e conquistas, sempre ao lado do esforço, da ordem, da constância. Fora isso, vemos que, se é verdade que o Botafogo pode ter lhe faltado com apoio em momentos capitais, é mais verdade ainda que sempre houve uma ou várias mãos estendidas a Garrincha, prontas a lhe socorrer um sem número de vezes. Ele, no entanto, fingiu não perceber, optando por uma autocomiseração que se tornou cada vez mais frequente de 1965/70 para frente.

 A tragédia individual do artista foi também familiar. Sobre sua casa em Pau Grande, a descrição (pp. 270-273) chega a provocar nojo. Uma amostra: “A imundície da casa horrorizou Elza. Havia objetos que pareciam caídos há meses no chão. As camas davam a impressão de não serem feitas nunca. Os colchões listrados, rotos e com mau cheiro, não tinham nada por cima. Sapatos e chinelos era atirados para baixo das camas, mas os exalantes urinois estavam à vista. / O banheiro, de cerca de quatro metros quadrados, era entulhado de gaiolas, além do poleiro do papagaio. O chão era um tapete de alpiste e cocô de passarinho. A pia era coberta de limo. O vaso não tinha tábua“. Sobre sua primeira mulher, Nair, sentimos um misto de pena e repugância: tamanha ignorância justifica ignorância tamanha? Não contarei aqui os detalhes de como ela foi tantas vezes enganada por seu “adevogado” (ele merece tal grafia) Dirceu Rodrigues Mendes.

 Felizmente, para Garrincha houve Elza. Mas, infelizmente, por mais que insistisse, nem Elza foi capaz de mudá-lo. Se o alcolismo foi a doença que lhe privou de viver a vida que ele tanto fez por merecer, ela não nascera sozinha como aqueles cânceres de pulmão que acometem os não fumantes; ele também tinha sua parcela de culpa, ainda que não a reconhecesse ou ainda que não se esforçasse o suficiente para combatê-la.

 Mas o livro também tem seus momentos felizes. A descrição dos primeiros jogos de Garrincha em Pau Grande, seus primeiros anos no Botafogo, as duas Copas do Mundo que ele conquistou, tudo isso nos faz ver por que ele merece a fama que sobreviveu à sua morte prematura (ou perlongada, considerando-se os hábitos insalubres que ele alimentou durante décadas) em 1983. É um livro de leitura rápida, ágil, dinâmica e fluente, comos os dribles do Mané.

 Nada disso, porém, pode ser dito do filme Garrincha: a estrela solirária (dirigido por Milton Alencar, estrelado por André Gonçalves). Há nele erros toscos como, numa cena, Garrincha, recém contratado pelo Botafogo,  anunciar que sua esposa está esperando um filho, e na cena seguinte, no mesmo ano, no mesmo mês, ela aparecer com três meninas (duas às mãos, uma à barriga).  Mas veja bem! – diria um defensor do filme – em 1954, Garrincha já estava para ter sua terceira filha com Nair. Pode ser, mas ele chegou ao Botafogo um ano antes. Licença poética? Eu não caio nessa.

 Outro erro tosco, talvez ainda mais grave, ocorre quando o filme sugere que Elza deixara Garrincha após saber que ele já tinha um filho homem com Iraci. De acordo com Ruy Castro, a separação é motivada por Garrincha não ter cumprido a promessa de parar de beber caso Elza lhe gerasse um filho; e ele não só  continuou a beber, como ainda punha em risco a saúde da criança. E, como se não bastasse, numa briga ele chegou a dar pontapés na criola – como ele a chamava carinhosamente. Quem vê o filme tem a impressão de que Elza o abandonara por mera vaidade.

 E o erro dos erros. Ao contrário do livro, em que a história é contada em terceira pessoa; no filme, o diretor opta pela primeira: é Garrincha que conta sua história, com uma quase onisciência que provavelmente ele nunca teve em vida. Soa completamente inverossímil que ele ecoe as reflexões que permeiam o filme. Veja bem: uma coisa é o Ruy traçar análises e reflexões sobre o papel que Garrinha representou, outra é o próprio Garrincha conseguir analisar-se num contexto amplo que sempre lhe escapou. Quem leu a biografia certamente sentiu-se ofendido pelo filme. Se você, caro leitor, não concorda com o que eu disse, ao menos concordará que as enunciações “poéticas” da narração não combinam em nada com o jogador.

 Perto disso, outros problemas são menores: o filme insiste abusivamente com as cenas de sexo, dando pouca ênfase ao futebol (sequer percebemos a importância do Garrincha na Copa de 58; sua última grande partida, aquela final do Campeonato Carioca de 63 contra o Flamengo, escapa rapidamente dos nossos olhos).

 Há mais, muito mais do que reclamar, mas como aquelas partidas chatas, monótonas, de falso pragmatismo, quanto antes acabam, melhor.