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Sócrates, de perfil

Sócrates foi um filósofo muito controverso. Mesmo tendo vivido numa época muito distante (5 a.C.), mesmo não tendo deixado qualquer tipo de texto escrito, ainda assim sua imagem é extremamente poderosa. Ainda hoje ele é visto como grande símbolo da argumentação, do questionamento – enfim – da liberdade individual. Essa conduta, porém, não costuma ser muito apreciada pelos governantes fortemente arraigados ao status quo que, muitas vezes, eles mesmos instituíram.

Sócrates tinha um – digamos assim – método educacional peculiar. Enquanto os sofistas se destacavam pela hábil oratória, pelo modo como expunham seus saberes, todos eles manjados e, por isso mesmo, inofensivos, Sócrates preferia o diálogo, por meio do qual, ele ouvia os argumentos de seu oponente (os quais muitas vezes representavam o senso comum ateniense) para depois, cuidadosamente, desfiá-los, um a um. Note: Sócrates era uma ameaça por exercer o raciocínio individual, em vez de aceitar passivamente as ideias com que todos concordavam.

Condenado à morte por sua má influência aos jovens cidadãos atenienses (onde já se viu estimular o povo a pensar?!), Sócrates tinha o direito de propor sobre si mesmo uma pena alternativa. Era do interesse dos políticos que ele optasse por uma – vejamos – extradição. Sim, o exílio seria uma ótima opção. Assim os políticos não só conseguiriam mandar o problema para bem longe como também passariam a ser vistos como tolerantes e benevolentes, afinal eles haveriam concedido o perdão ao filósofo; todo mundo ficaria feliz.

 Mas não Sócrates.

Quando chamado para apresentar uma pena alternativa, ele propôs que o povo de Atenas o sustentasse até o fim da vida. Era óbvio que a proposta seria recusada. Aceitá-la seria sublinhar a própria derrota, a qual – note – já estava selada. Sócrates, no seu discurso,  estava antecipando a própria condenação. Sim, ele foi obrigado a tomar cicuta, mas foram seus adversários que engoliram a derrota.

Mal servido

Sócrates me fez ir ao teatro. Pegar ônibus num dia quente e chuvoso. Ficar na fila mal organizada num dia quente e chuvoso. Tomar a suja chuva paulistana num dia quente e chuvoso. Mas Sócrates vale a pena. Assistir à dialética em ação – discussões, ideias em polvorosa – não abriria mão disso tudo. Foi isso, e não os comes e bebes, que me levou a ver a encenação de O Banquete pelo Teatro Oficina em fins de dezembro.

A decepção não poderia ser maior; a peça já começa concluída: os argumentos cederam lugar à pura exposição de um ponto de vista – o elogio ao amar, verbo intransitivo; não importa o quê, não importa a quem. Contra a conclusão em si, nada tenho, filosoficamente falando. O problema é chegar a ela sem o devido debate, a desejada discussão (Caricaturar o oponente como um fanático fundamentalista cristão – acreditem em mim, chegaram a esse nível – possui a mesma graça que as piadas em que os comunistas são retratados como comedores de criancinhas; esse tipo de humor rasteiro combina mais com a erística do que com a dialética).

 Moralmente falando, não vejo nada contra a excessiva exposição de nudez. Mas não posso concordar com quem vê nisso uma forma de contestação, um modo de sacudir o público. Talvez isso funcionasse se a plateia fosse constituída por velhotas saídas do convento, mas ao público de mente adolescente, já acostumado com novelas e zorras totais da vida, a nudez lhe serve mais de estímulo corpóreo que intelectual. Não por acaso, o vinho servido ao público é leve e suave, fácil de beber, muito adequado a paladares imaturos[1]. Se isso foi uma ironia proposital, ponto para o Zé Celso!

 Infelizmente, não deve ter sido. Infelizmente não conheci o Oficina da década de 1960, quando sua fama parece ter se construído / consolidado, mas a primeira impressão deste que aí está não poderia ser mais brochante.

 


[1] À parte de qualquer discussão artística, a Casa Valduga produz excelentes vinhos.