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de retalhos

O que sobra da vida se lhe tirarmos os instantes, não aqueles forjados por fotografias enganadoras, mas aqueles que acontecem sem que percebamos, aqueles de que iremos nos lembrar quando desejosos de alegrias e felicidades olharmos para trás?

Aos instantes cujo sabor se destaca na amargura ou pela amargura, um toque de permanência lhes convém. Preciosidades hipotéticas, sublimações ilusórias? Que seja. Ao cofre em papel e grafite, ou em guardanapos, lenços sujos por um ou outro lamento, uma alegria esganiçada, ao cofre, por que não? Às vezes as impressões surgem antes dos pensamentos, às vezes os pensamentos se disfarçam de impressões. Abriguemo-los, cativemo-los, quem sabe o que eles serão? Se forem um agudo sentimento que se revelarão ao lhes revisitarmos, se forem apenas um arremedo, uma caricatura, um clichê do qual nos envergonharemos, já serão alguma coisa nossa, para nossa glória ou nossa vergonha, mas uma coisa nossa.

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dos instantes

– A função dos instantes é negar sua natureza fugidia
ser em vez de ter sido
permanecer em vez de perecer
mas mesmo assim eles vão.

– A função dos instantes é ser fugidio
a essência que se esvai não deixa de ser essencial
pois é nos deixando que fica em nós a sua irretratável lição.

De um aforismo, o tempo.

O tempo: a negação do eterno.
Daí, portanto, a importância de fruí-lo enquanto.
Pois, sim, o advérbio existe e restringe,
o cruel advérbio inespecificado,
o doce advérbio que nos abriga,
que nos sufoca, sendo nosso oxigênio.
O que é o tempo?

***

O eterno: a negação do tempo.
Daí, portanto, a negação da vida.
A doce e cruel ilusão de se ter quando se perde.
Tal qual o amor
racionalizado em vez de fruído,
aprisionado em vez de fluído.

O eterno
eufemismo do vazio.

Nem verde, nem passado

Geiza Máximo

Sete dias; o que para um doente pode representar a esperança, para a História se torna algo insignificante. A concepção de tempo se mostra extremamente intimista, pois reflete a forma como a humanidade se posiciona perante sua passagem pela vida. Ainda que haja uma concepção coletiva sobre as noções de passado, presente e futuro, nem sempre o homem vive, de fato, no presente do indicativo.

Poucas coisas são tão infalíveis quanto a passagem do tempo, e este fato atormenta parte significante da sociedade. Negando-se a aceitar as “marcas do tempo” cresce, cada vez mais, o número de pessoas que se submetem a intervenções cirúrgicas em busca de um rosto mais jovem. Este fenômeno representa o sentimento saudosista em parte destas pessoas que, opondo-se ao seu presente, limitam suas vidas ao que já está findo.

As experiências e as emoções que compõem o passado o tornam um fator primordial na construção de um cidadão. A reflexão sobre o passado, em termos, impede que erros sejam repetidos, mas este aprendizado não deve limitar totalmente as ações de um indivíduo.

Da mesma maneira que o presente é influenciado pelo passado, o futuro pode incidir sobre ele. As vislumbrações que a modernidade e suas tecnologias causam nos seres podem determinar a forma com que vivem o presente. Na obra de Eça de Queirós, A cidade e as serras, há Jacinto, um personagem que num primeiro momento mostra-se completamente encantado com as “maravilhas da civilização”. Posteriormente, Jacinto viu-se fatigado das inovações e passou a perceber as maravilhas que o mundo comum lhe proporcionava.

Por mais que alguns não aceitem, o tempo sempre passa, deixando suas marcas e suas lições e, mesmo que outras desejem, o futuro não chega de “pronta-entrega”, caminhamos até ele. Cabe ao homem aprender a aproveitar seu presente sem se desligar do passado e sem tirar seus pés do chão. A vida é um fruto que renova suas virtudes com o passar do tempo.

Passagem da vida

CMSK (cintiama@globo.com)

 

“O encanto da Londres moderna não é ser construída para durar, é ser construída para passar”. Virgínia Woolf, em Cenas Londrinas, explica um dos motivos pelos quais é tão apaixonada pela capital inglesa: esta não fica presa ao passado, mas está constantemente  mudando. De fato, tal característica é fascinante; trata-se de um desperdício estacionar a vida no que já foi, nos que já foram e em tudo que poderia ter sido, quando se pode deixá-la passar para que se aproveitem todas as novas experiências e oportunidades que ela pode trazer. Eis a beleza do presente: apenas nele a vida tem movimento; passa, rumando para o futuro e deixando o estático passado.

 

Deixar aquilo que passou não significa esquecer, mas compreender que a história não pode ser mudada. É claro que estudar e entender experiências passadas é importante para aprender com os erros antes cometidos e entender por que eles aconteceram, por exemplo. Por outro lado, cabe lembrar que as pessoas recorrem ao passado, na maioria das vezes, para buscar refúgio do presente ou para entender as origens de determinadas situações atuais. Assim, a grande relevância dele se dá em função do presente.

 

O presente é o único tempo passível de ser vivido deveras, de modo que aqueles que não o acompanham estão dessincronizados com a realidade. Por causa disso também, apenas no presente pode-se ser feliz por inteiro. Aqueles que foram felizes no passado e estão miseráveis no agora tendem a viver das boas lembranças. Ocorre que isso muitas vezes impede que eles vejam as novas possibilidades de serem felizes, uma vez que a história não se repete e, para eles, a única felicidade é a que viveram e à qual ainda estão presos. Analogamente, existem pessoas que projetam para si um futuro glorioso, mas agarram-se tanto a ele que não percebem alternativas. As escolhas de cada um devem ser feitas, claro, tendo-se em vista o passado e o futuro, mas sem que se esqueça que é o que realmente importa é ser feliz no presente. A felicidade, bem como todos os sentimentos bons, atemporais e universais, deve ser “eterna enquanto dure”, nas palavras de Vinícius de Moraes.

 

Tais sentimentos, e o amor é um bom exemplo, não mudam, por mais que o tempo passe, mas só podem ser vividos enquanto duram; e não é sempre que eles se manifestam na alma humana. Por isso o homem está sempre a buscá-los: ele quer amar, quer ter esperança, quer ser feliz, e planeja seu futuro de modo que este seja repleto dessas emoções. Entretanto, na verdade, o que se busca é garantir que o futuro seja bom porque um dia ele será vivido, será presente.

 

Há pessoas que vivem de lembranças, se alimentam daquilo que perdura, outras, por sua vez, vivem em função do futuro, mas dessa forma elas o estão adiando, pois se agarram a um projeto que, por mais que seja completado, não garantirá a felicidade, objetivo maior da vida. A vida ganha sentido à medida que pode ser, de fato, vivida e sentida. O encanto da vida não é ser construída para durar, nem ser construída para um dia ser vivida; é ser construída para passar, e assim permitir que cada um aproveite o máximo que ela pode oferecer.