Arquivo de Tag | veja

Adjetivações

Por ocasião de uma brincadeira que fiz sobre uma propaganda da revista Veja, um leitor apressado chamou-me de petista. Bom, se ele fosse menos preguiçoso, teria lido melhor o blog e visto textos em que eu elogio filmes que de modo algum espelham o viés sociológico tão querido das esquerdas (caso de Sherlock Holmes e Benjamin Button) ou outros em que eu critico abertamente a massificação perigosamente disfarçada de coletivismo (caso de A onda e Ninguém escreve ao coronel) ou ainda um em que eu repudio a propaganda homofóbica da Marta. Mas nem era preciso tanto esforço. Se ele fosse honesto, teria visto no mesmo post elogios a dois articulistas da mesma revista, o que evidencia que a crítica era específica, e não genérica como ele conseguiu entender.

Já falei demais do Moacir, coitado. Na verdade, ele, como indivíduo, caso o seja, pouco me interessa. Mas convém discorrer sobre sua curiosa postura. É típico das cabeças que não conseguem articular um raciocínio satisfatório, valer-se de adjetivações simplistas, estereótipos sem os quais não se consegue fingir um mínimo de inteligência. Por isso, mas não só por isso, é interessante ver e rever alguns filmes de John Ford, como As vinhas da ira ou Como era verde o meu vale. Pode-se discutir a noite toda sobre a postura ideológica do diretor: trata-se de um cristão ou de um comunista? – perguntam-se os escravos dos adjetivos soltos. Ora, em ambos os filmes, o que vemos é um forte senso ético, que não se submete nem à hipocrisia de muitos cristãos nem às falsas promessas de muitos – todos? – socialistas. Querer reduzir o caráter de um homem a um adjetivo que esteja na moda é furtar-se da condição de ser racional.

Ao contrário do que já saiu publicado na Veja, existe sim muita diferença entre ter cultura e apenas disfarçar a sujeira com verniz, ainda que pessoas como o Moacir não consigam perceber.

Não seja

 Certa vez, uma amiga publicitária conseguiu convencer-me da importância social da propaganda, afinal – segundo ela – é importante que as empresas possam dialogar direta e indiretamente com o consumidor. Exemplo do primeiro modo são as fotos com que o Ministério da Saúde estampa embalagens de cigarros; exemplo do segundo são aquelas imagens de viris cowboys fumando na fazenda, a qual aliás pode até não transmitir uma ideia sincera, mas que deixa um ar de poesia no ar, ah isso deixa.

 Mês passado, estava eu perto do metrô Vila Madalena, quando me deparei com uma interessante propaganda da revista Veja.

 

 A maior parte dos meus amigos acha que essa revista serve apenas para higiene pessoal, outros são menos benevolentes. Já eu assumo que leio com gosto o André Petry e o Roberto Pompeu de Toledo. O que achamos da revista, no entanto, não interessa. O intuito desse texto é analisar a dita propaganda.

 A revista em questão lançou uma série de frases imperativas que cheiram a autoajuda: Seja ético, seja indispensável etc. Há sim um tom de pieguice que os de boa memória não demoram a associar a um pretencioso e improvável manual de ética. Isso, porém, também pouco importa. O que os leitores ou não leitores pensam da revista não vem ao caso; a falta de decoro ou bom gosto em suas formas de propaganda, idem. O que convém observar é a frase em questão:

SEJA CONECTADO é um misto de imperativo com voz passiva, equivalente a “Deixe alguém conectar você”. Sendo a frase em questão propaganda oficial da revista em questão, não é exagero pensar que o agente conectante seja a própria revista. Poderíamos então alterar o slogan para “deixe-nos conectá-lo”.

 Uma revista que assume o papel de manipuladora, sem dúvida alguma, merece elogios tanto pela coragem quanto pela cara de pau.

 P.S.: um amigo meu, defensor da revista, argumenta: “Não há nada de mal em a revista conectar o leitor ao saber, por exemplo”. Talvez, mas em todo caso, continuo achando que o indivíduo tem de ser independente a ponto de ele mesmo, ativamente, estabelecer suas conexões. Mas, enfim, quem quiser ser conectado… que seja.