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Vitor Ramil

Vitor Ramil é um artista sofisticado. Capaz de mesclar som e sentido de maneira a quase não acreditarmos no que ouvimos, capaz de criar imagens fortes, dando massa a abstrações, como neste trecho de “A ilusão da casa”

As imagens descem como folhas
no chão da sala.
Folhas que o luar acende,
folhas que o vento espalha.

em que as memórias solidificam-se na forma de folhas cadentes. Ainda que não saibamos se essa folhas são de árvore ou de caderno, em todo caso elas remetem a algo que está fora de seu “habitat” – não são assim as memórias? O aspecto pictorial também é muito bonito: as folhas iluminadas pelo luar ganham um tom prata, que lhe acentua o contraste; o vento as espalha, distribuindo caleidoscopicamente suas cores pelo quarto.

  Do novo álbum, Delibab, a música que primeiro grudou em meus ouvidos foi “Mango”, uma bela milonga feita a partir do poema de João da Cunha Vargas. Ouvi-la é ser transportado aos pampas gaúchos que existem na minha memória de livros ou filmes como Um certo capitão Rodrigo, excerto de O tempo e o vento, de Érico Veríssimo. Para enteder a música, é preciso ter uma imagem nítida do gaúcho do continente.

Mas mesmo assim não é nada fácil. Eu penei para entender o vocabulário. Confira você mesmo:

 http://letras.terra.com.br/vitor-ramil/1248413/

P.S.: hoje tem show do Vitor Ramil no Sesc Pompeia às 21h. Nem adianta ligar para mim neste horário.

Viajando

 Existem diversas questões filosóficas. “Por quê?” Você me pergunta já exemplificando minha tese. A postura filosófica que mais aprecio é o gosto pelo saber daquele que não se acomoda perante frases e ideias alheias. O questionamento é a principal forma de nos opormos a ambientes massificadores e alienantes. Repare: quem de fato percebe a diferença entre uma opinião e um palpite? Entre um argumento e uma adjetivação? Dia desses uma amiga me perguntou o que eu estava ouvindo. Pensei em responder de cara o nome do músico gaúcho e deixar por encerrada a conversa. No entanto, tenho grandes dificuldades em manter um bate-papo meramente fático. Desejoso de algo menos superficial, resolvi investigar os motivos que me levaram a apreciar o músico que mais ando ouvindo ultimamente.  E para isso, resolvi analisar Viajei, de Vítor Ramil (Mande abrir em outra janela para que você possa ouvir a música antes ou depois de ler a continuação do texto).

 A canção é sintetizada já no primeiro verso, criando uma expectiva no ouvinte: viajou para onde? Para dentro de mim, responde o cancioneiro ao nos indicar o uso figurado do verbo; a  polissemia se anuncia. O devaneio é uma espécie de viagem. Felizmente, porém, o autor encontrou meio mais poético de traduzir o que acabei de dizer linearmente. Repare no modo como ele intercala as aliterações das oclusivas com a assonância alternada das vogais abertas e fechadas: “Ligado num segundo / no seguinte, desliguei / do que ia dizer”. É como se a tensão provocada pela combinação entre oclusivas e nasais simbolizasse o constante alerta (tique-taque, tique-taque) de quem está “ligado” (Minha dica: pronuncie atentamente os versos, sinta o que estou dizendo), e a partir da metade da última sílaba de “desliguei” o indivíduo fosse se “desligando”. Foneticamente, isso é sugerid0 pelo prolongamento que se dá na pronúncia do Ei, Ia, Eêê, (“desliguEi do q’Ia dizÊee“) como se tivéssemos uma sucessão de ditongos decrescentes induzindo uma pronúncia vocálica deslizante e suave.

 A segunda estrofe consegue manter o bom paralelismo entre som e sentido.  Primeiramente, temos o trocadilho Divaguei / Devagarinho, o qual sugere uma repetição que não acontece, eis que somos iludidos pelo cantar.  Na sequência, a assonância nasal parece conduzir o devaneio: “Devagarinho, evoluindo / Num carinho teu”. E a alternância binária de átonas e tônicas “perDIdo a ME perDER“, além de retomar “do que eu ia dizer”, parece anunciar o movimento certeiro que se verá na sequência: em  “MAR aDENtro, NOIte aFOra / aGOra, aMOR” há o desenho fonético da onda do mar, como se estivéssemos num barco cruzando as ondas; esta é nossa viagem.

 Há outros traços significativos na canção, mas deixemos o didatismo de lado. Como cantou Camões, “melhor é experimentá-lo que julgá-lo”.

 p.s.: ganha um doce quem primeiro metrificar corretamente o verso camoniano.