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… não era uma narração

 Era uma vez um garoto que não morava numa casa de campo, não conversava com sapos e não tinha um velho baú com cartas esquecidas no sótão. Sua casa sequer tinha sótão, ele sequer tinha um bichinho de estimação, mas ele morava numa casa pequena, onde de vez em quando parava para pensar nas coisas.

O quintal, cimentado, não tinha tocas de tatu, vasos de plantas ou tijolos à mostra; nada que revelasse ou desse margem para um devaneio – e como ele gostava dessa palavra. Antes mesmo de conhecer seu signficado, ele a sussurava com deleite, bem baixinho, quase que só pensando, para que ninguém a ouvisse, como se a quisesse só para si. De-va-nei-o…

Ele não ouviu essa palavra de uma garota bonita nem de um garoto amigável, nem de um velho tio-avô desconhecido, nem de um jovem primo aventureiro. Mas mesmo assim ele gostava, como gostava, de sentir aquela palavra. Nunca ninguém lhe explicou o que ela significava. Pouco tempo depois de conhecê-la, ele sentiu que ela lhe era íntima, quase que uma cúmplice, abraçou-se a ela e ficaram amigos.

Como sua casa não tinha bichos, jardim, sótão ou qualquer outra misteriosidade, às vezes ele se deitava no quintal e fica olhando para as nuvens passeando no céu. O curioso é que ele nunca se preocupou em decifrar se as nuvens tinham formato de pessoas ou bichos; satisfazia-se apreciando as texturas, as cores e os contrastes, ora harmônicos ora desarmônicos, que se formavam. Às vezes, escutava o barulho das nuvens (não confunda com o barulho do vento) e se sentia realizado. Certa vez a chuva caiu sobre ele. Foi um dia muito gostoso.

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Um sonho atípico

Era madrugada e eu caminhava por uma alameda na Tijuca. A leste, sentia a sombra escura e densa que parecia vir do outro lado do Atlântico; a oeste, os ventos e sussurros da floresta carioca. Olhei o firmamento e neste as estrelas fingiam bailar como naqueles jogos de ilusão de óptica. Sentei-me num banco e percebi dois sujeitos conversando:

 

 – Ora, ouvir estrelas! Certo, perdeste o senso – disse o ontologista.

– Para ouvi-las – respondeu o metafísico – muita vez desperto e abro as janelas, pálido de espanto… e conversamos toda noite, enquanto a Via Láctea, como um pálio aberto, cintila. E, ao vir o sol, saudoso e em pranto, inda as procuro pelo céu deserto.

Tresloucado amigoQue conversas com elasQue sentido tem o que dizem, quando estão contigo?

Amai para entendê-las! Pois quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e de entender estrelas.

 

Mirei o homem de bigodes e resolvi participar do embate:

 

– Meu chapa, que razão te leva a ouvir as estrelas?

– São elas mais companheiras que meus companheiros.

– O que te dizem vai mais a teus sentimentos?

– Tocam-me a essência…

– Interessante… 

– Tendo a trazê-las para dentro do peito…

– Importante…

– Sim.

 

– Amigo poeta – disse o sério e calmo portuga de olhos azuis retomando a palavra – agora vais me contar que também o vento te faz confissões?

– O vento também me é querido. Nada ele te diz?

– Ora, diz que é vento, e que passa, e que passou antes, e que passará depois.

isso?

. E a ti o que te diz?

Muita cousa mais do que isso. Fala-me de muitas outras cousas. De memórias e de saudades e de cousas que nunca foram.

– Bobagem. Nunca ouviste passar o vento. O vento fala do vento. O que lhe ouviste foi mentira, e a mentira está em ti.

 

– Meu jovem – intrometi-me novamente – tuas palavras soam envelhecidas.

– E o que seria a velhice, se não um nome?

– Como assim?

– Tu me julgas em nome de uma regra predeterminada. Olha-me como sou!

– Queres que eu te olhe?

– Na verdade não. Sinta o vento, sinta a noite. Deixe de lado tua inquietação quanto a mim.

– Recusas-me um comentário?

– Claro que não! Diz, anda!

– Ao ouvir o vento e as estrelas, concordo que nosso amigo está a escutar vozes interiores – talvez a mente não lhe queira encarar, então os sonhos lhe sussurram as palavras. Que achas disso?

– É o que penso.

– Se é o que pensas, achas mesmo que as idéias escondidas de nosso amigo poeta lhe sejam falsas?

– Falsas?

– “A mentira está em ti”, não foi isso que escutei?

– Quase me entendestes. O que o amigo sente é falso enquanto se lhe soa uma voz objetiva e concreta. Trata-se de uma subjetivação – disse, apontando os olhos ao metafísico.

 

– Não tens ouvido capaz de ouvir e de entender…

– E tu? Tens a audição fantasiosa. Eu só ouço o que se pode ouvir. Tu ouves o que queres…

– Ouço o que se deve ouvir, tu aceitas passivamente o que te dizem…

– Tu é que imaginas ouvir o que tua filosofia prega…

 

E continuariam nessa lengalenga, mas tentei dar um basta:

 

– Amigo lusitano, não percebes que tua filosofia também é símbolo? Ambos se exaltam por terem a mesma razão e desrazão. Tudo é símbolo e analogia. As estrelas e a névoa podem representar, num raciocínio seco, a ciência objetiva, mas também o convite à passividade do não pensar. Por outro lado, podem trazer filosofias íntimas ou alienações recorrentes. O vento que passa, a noite que esfria, são outra coisa que a noite e o ventosombras de vida e de pensamento.

– Epa! Essa frase é minha – disse o ontologista enquanto deixava cair sua máscara. Continuou:

Tudo o que vemos é outra coisa. A maré vasta, a maré ansiosa, é o eco de outra maré que está onde é real o mundo que há.

Assustei-me: bigodes invadiam sua face, um chapéu preto enfeitava-lhe a cabeça, um cheiro de café misturava-se à neblina.

Tudo o que temos é esquecimento – finalizou triunfante. A noite fria, o passar do vento, são sombras de mãos, cujos gestos sãoilusão madre desta ilusão.