Flores e Moinhos

Michell Lee

 

  Um poeta, depois de ler e ouvir loas e loas sobre a rosa perfeita, sem espinhos, sai em uma jornada pelo campo aberto esperando satisfazer a sua curiosidade. Após dias procurando, só conseguira arranhões e ferimentos; a quantidade de espinhos era imensurável, contudo, encontrar a tal rosa tornou-se um requisito para a sua felicidade. É de forma semelhante a esse poeta que muitos de nós agimos: ouvimos ecos sobre o amor como expressão máxima dos prazeres, como requisito para a satisfação e bem-estar individual, como a chave para a felicidade. Esquecemos de refletir criticamente que não existem rosas sem espinhos e passamos a procurar algo inexistente. Embora pareça paradoxal a princípio, quanto mais procuramos esse amor idealizado, mais nos afastamos da felicidade plena.

 

  A felicidade é a convergência de dois tipos psicológicos que coexistem em um indivíduo. Em Dom Quixote, Cervantes caracteriza o protagonista como um sonhador, ambicioso, que busca algo a mais do que o simples tangível. Sempre em sua companhia, estava a figura de Sancho Pança, responsável por trazer Quixote de volta à realidade, de lhe mostrar as dificuldades e obstáculos. Dom Quixote e Sancho Pança representam os tipos que, em muitos aspectos, caracterizam um indivíduo. Para muitos, a felicidade é quando essas duas figuras se anulam: o nosso “Quixote” deixa de buscar necessidades a serem supridas – porque todas elas já foram satisfeitas – ; e o nosso “Sancho” para de nos apontar as dificuldades de sonhar alto – já que todos os desejos já foram consumados. É óbvio que tal estado de espírito é utópico em sua totalidade – o indivíduo feliz, de modo geral, é aquele que está sempre a sonhar com novas conquistas sem deixar, porém, de usufruir aquilo que já conquistou. Saber administrar os dois tipos psicológicos, isto sim, é a felicidade.

 

  O amor tornou-se um placebo. Desde a Era Medieval até os dias atuais, o homem sempre foi influenciado por ideias que tinham como caráter central o amor idealizado. Contudo, a perfeição é um valor dos mais abstratos e fugazes, portanto não pode ser concretizado plenamente na realidade; tanto é que Machado de Assis dizia: “A vida não é uma fábrica de sentimentos; não se vive como se romanceia”. Assim, como nem todos distinguem o ideal do factível, muitos dão demasiada liberdade para o seu “eu-Quixote”, empregando-se em uma procura constante sem, de fato, encontrar uma rosa sem espinhos – ou, metáforas à parte – sem satisfazer os seus desejos.

 

  Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, certamente concordaria que a felicidade e o amor deveriam ser naturais, ou seja, de forma livre e espontânea sem a preocupação com ideais de perfeição. Percebemos, portanto, que a felicidade ou mesmo o amor não precisam ser demasiadamente racionalizados: viver sem pensar nesse aspecto ajuda a manter o equilíbrio entre o Quixote e o Sancho que convivem dentre de nós. Assim, ao invés de o poeta  buscar uma rosa sem espinhos, e viver normalmente, é muito provável que ele ache diversos espinhos, porém, sorriria ao ver que estes possuem uma rosa muito bonita, de cores vivas e pétalas vistosas à qual ele não havia dado o devido valor. 

Meus haiquases

Ainda que morrendo
O canto das cigarras
Nada revela
.
Matsuó Bashô
(tradução de Olga Savary)

O homem médio só sabe falar dele mesmo. Foi mais ou menos isso que eu li dia desses em Memórias do Subsolo, de Fiodor Dostoiéviski. Quando otimista, como agora, consigo me considerar um homem médio, e como não sei falar de mais nada a não ser de mim, resolvi aproveitar a deixa para analisar alguns textos meus.

Há dois gêneros literários pelos quais venho me interessando ultimamente. O primeiro deles é o aforismo, a frase curta, de efeito, que consegue sintetizar um determinado raciocínio. Nos textos machadianos, por exemplo, podemos encontrar diversas frases curtas que seriam ótimos aforismos: “Há criaturas que chegam aos cinqüenta sem nunca passar dos quinze” (A Mão e a Luva), o qual poderíamos comparar com “A juventude é ótima, pena que seja desperdiçada com os jovens”, de Bernard Shaw. Cada uma delas, do seu jeito, a seu modo, repelem as idealizações tão costumeiras que se faz, respectivamente, à velhice e à juventude. O leitor, então, é convidado a refletir e, quiçá, a contestar as máximas que não raro se nos são oferecidas dia após dia.

A contraposição de ideias, aliás, é uma boa ferramenta para a construção do aforismo. Afinal, este, por se opor ao conservadorismo preguiçoso das frases feitas que são repetidas à exaustão, quando bem feito, busca justamente estimular o raciocínio, balançando nossos conceitos, fomentando o pensar. Desse modo, já que os livros de auto-ajuda enfatizam tanto o planejamento, o futuro, me senti estimulado a criar um aforismo que questionasse essa perspectiva: Não hipervalorize o futuro; quando chegar, ele não durará mais do que um instante. Talvez haja quem veja no meu aforismo uma paráfrase do famoso Carpe diem quam minimum credula postero, mas – insisto – ao optar pela litote evitei o tom afirmativo e categórico que daria ao aforismo tons de máxima. Daniel Piza, na introdução de seu livro sobre o assunto, sintetizou bem a questão: “Os melhores aforismos [...] são os que usam verbos como ‘ser’ e formas como o imperativo de uma forma relativista, não com a pretensão de criar juízos definitivos sobre o comportamento humano”.

O segundo gênero a que me referi é o haikai, o poema curto de origem japonesa, onde muitas vezes encontramos uma falsa simplicidade sintetizando belezas ímpares. Aqui no Brasil, diversos autores o cultivaram, desde Guilherme de Almeida (o qual aprisionou o poema japonês em rígidas formas parnasianas) a Paulo Leminski, passando por Millôr Fernandes, do qual retiro este belo exemplar que, coincidentemente ou não, tem muito a ver com o aforismo que deixei lá em cima:

A vida é um saque
Que se faz no espaço
Entre o tic e o tac.

Quando li esse haikai, a primeira coisa que me veio à cabeça foi uma bonita música do Vitor Ramil em que o cancionista consegue fazer melhor que  Millôr, pois transmitiu a ideia tanto pelas palavras quanto pelo malabarismo fonético com que intercalou aliterações oclusivas e assonâncias deslizantes.

Bem, voltando agora à mediocridade daquele que só sabe falar de si mesmo, vou analisar alguns de meus textos recentes. Nada direi sobre os cinco aforismos que escrevi tempos atrás, considero-os crescidinhos o suficiente para que se defendam sozinhos. Falarei então dos meus haikais, aliás, haiquases, visto que faltando-me habilidade para criar algo decente, optei por mesclar (assim ingenuamente creio) a sutileza do epigrama japonês com o tom incisivo da frase curta que os gregos nos legaram. (Não vá embora, leitor. Aforismos e haikais são textos curtos, daqueles que a gente lê sem perceber. Quando acabar, você nem perceberá o tempo que perdeu).

Fim de tarde
A borboleta repousa
                                            no sino
O padre atrasa o sermão.

O primeiro verso faz referência às 18 horas, momento em que se costuma entoar o famoso cântico de Bach / Gounod em homenagem à virgem Maria, momento em que os sinos da igreja costumam projetar aquele som forte e penetrante. No entanto, a borboleta, símbolo da ingenuidade e fragilidade, repousa no sino, colocando o padre perante uma difícil questão: cumprir com um costume de sua religião ou deixar que a pequena e frágil criatura de Deus continue seu repouso? Enquanto reflete sobre as formas abstratas e concretas com que o espírito religioso se manifesta, o padre deixa seus fiéis esperando enquanto contempla a borboleta.

No segundo verso, creio ter usado um renso, figura de linguagem japonesa que consiste na associação de ideias que uma palavra gera em relação a outra. Desse modo, o verbo “repousa’ guarda em si o movimento com que a borboleta chegou ao sino, justificando assim a quebra do verso em dois, como se eu desenhasse no verso o pousar do pequeno inseto.

Feriado
taco fogo
no formigueiro.

Nesse haikai, é possível perceber facilmente o encadeamento das assonâncias (feriAdo, tAco; fOgo, fOrmigueiro) o que, em si, serviria apenas para deixar os versos gostosos de se ouvir (ou enjoativos, depende do gosto). Há, porém, um elemento sonoro mais significativo para o poema. A aliteração das consoantes fricativas (Feriado, Fogo, Formigueiro) sugerem o ar que se sopra ao fogo para que este se espalhe. Já em relação ao conteúdo, é importante observar a antítese entre feriado (símbolo do descanso) e formigueiro (símbolo do trabalho), o que explicaria a postura um tanto macunaímica do eu lírico.

No inverno
o sol é ilusão
do vento.

O inverno nem chegou, mas acho que todo mundo aqui em São Paulo entende bem o que quero dizer.


solidário
o silêncio.

Há aqui outra tentativa de praticar o renso. O raciocínio raso sugeriria ao segundo verso o adjetivo solitário, o qual seria bastante pertinente, mas daria ao poema um tom demasiado negativista. Valendo-me do princípio do aforismo, procurei contestar esse lugar comum, insinuando que o silêncio, às vezes, pode nos ser uma sólida companhia.

Achei na internet um haikai de Bashô, o grande mestre japonês:

E tu, aranha
como cantarias
neste vento de outono?

O poema, no entanto, ficou a desejar (refiro-me claro à forma com a qual ele se apresenta em nosso idioma). Há nele um tom excessivamente didático. Buscando dar um toque a mais de sutileza, fiz este haiquase de dois versos:

Aonde se esconde
o canto da aranha.

Em que a preposição a aponta para o lugar onde se esconde uma preciosidade da natureza, da qual poucos podem usufruir. A sequência das nasais, não por acaso, procura tornar a pronúncia leve e sutil, pois o barulho atrapalharia a busca.

O galho seco
sustenta o corvo.

Para terminar, quero falar sobre meu haiquase favorito. Acho que ele admite quatro leituras. Vamos a elas:

1 – O galho seco sustenta (segura) o corvo;
2 – Pela técnica do renso: O galho seco sustenta o corvo. Mas como denotativamente isso não faz muito sentido, teríamos: A morte é tentada (atraída) pela velhice;
3 – O galho seco sustenta o corvo (a velhice alimenta a morte). E por último:
4 – O galho seco sustenta o corvo (a velhice resiste à morte).

Caso eu soubesse pintar, faria em sumiê justamente essa imagem.

Haiquases (?) – 2

O galho seco
sustenta o corvo.

***

a memória
o tempo
sussurra.

***

Aonde se esconde
o canto da aranha.

***

Rápido
rapto
os sonhos vagueiam

***

Da flor escondida
o perfume basta.

***


solidário
o silêncio

***

No inverno
o sol é ilusão
do vento.

***

Feriado
taco fogo
no formigueiro.

***

Fim de tarde
A borboleta repousa
                                            no sino
O padre atrasa o sermão.

Publicado em: on 30 Maio, 2009 at 11:09 pm Comentários (1)

Sem refugar

 

No início da semana passada, mal havia controlado a balbúrdia da sala de aula, notei que um aluno magrinho de cabelos emaranhados se aproximava segurando um pequeno pedaço de papel. Ao contrário do que eu supus, não era daqueles bilhetes que recebemos no trem (Sou surdo, minha família não me alimenta, me arruma uns trocados, que Deus lhe abençoe), mas um folder, uma espécie de convite para a peça de teatro da qual o Lucas (o menino magro de cabelo emaranhado) participa.

Talvez por pena da cara de dó com a qual o aluno me abordou, talvez por não querer limpar a areia dos gatos, chamei minha esposa e fomos ao teatro. A expectativa era ver o Lucas escondidinho em algum canto escuro do palco, fazendo cara de paisagem ou – por que não? – numa participação especial como defunto que não fala, não se mexe, não atrapalha ninguém. Felizmente, porém, tive a segunda surpresa positiva da semana, pois além de ele ter conquistado um dos três papéis mais significativos da peça (havia uns sete ou oito atores), teve uma atuação bastante convincente, sem refugar.

Isso por si só já teria valido a pena, mas a peça também ajudou. Refugo conta a história de um jovem ebúrneo que, após perder a família, vai parar num abrigo de jovens no Reino Unido. A polissemia explora a analogia entre refugiado e refugo (lixo, sobra), mostrando com certa delicadeza a questão humana por trás de jovens que podem ser tornar a “escória da humanidade” (curioso como quase sempre a ênfase desta expressão recai sobre escória e não sobre quem a produziu).

Ainda que o nome do teatro faça com que muitos esmiúcem a peça à procura de um tom panfletário, creio que há coisas mais importantes a encontrar. E quem for assistir, encontrará.

Se a peça fosse minha, obviamente algumas escolhas, algumas ênfases seriam diferentes. Isso, no entanto, em nada desmerece a peça. Se for para ir ao teatro e encontrar algo que eu já conheça, algo com que já estou intelectualmente habituado, ficaria em casa me olhando no espelho.

E você?

 

***

 

Informações e reservas: 8634-2385

Publicado em: on 27 Maio, 2009 at 9:46 pm Deixe um comentário

O Gabinete do Dr. Caligari: Uma metáfora do totalitarismo

Frederico Di Giacomo Rocha

 

caligari

 

A mente de um louco nas telas de cinema, a consciência sombria traduzida em imagens góticas que tanto simbolizam uma história de terror quanto representam uma crítica ao totalitarismo. “O Gabinete do Dr. Caligari” é um marco do cinema mundial infinitamente resenhado e comentado. Sua importância é indiscutível, foi o primeiro e mais importante filme do chamado expressionismo alemão que reinou entre 1918 e 1928. Antecedeu os clássicos “Nosferatu” de Murnau e “Metrópolis” de Fritz Lang, tornando-se o primeiro sucesso do cinema de horror. Segundo Fritz Lang, no livro “O Século do Cinema” de Glauber Rocha, não existia um movimento expressionista organizado no cinema austríaco/alemão, esse foi apenas um rótulo achado pela imprensa para catalogar aquele cinema primitivo de começo de século. Polêmicas a parte, não se pode negar as semelhanças estéticas entre as obras desses autores e a influência dessa escola de arte no filme de Wiene.

O roteiro é aparentemente simples: Francis, um homem internado em um hospício, fala a um outro, em flashback, de uma série de assassinatos cometidos em uma cidade do interior alemão (Holstewall) a partir da chegada de uma feira itinerante na qual se destaca o Dr. Caligari (Werner Kraus), uma espécie de pai do Zé do Caixão* com sua cartola e sobretudo negros, que controla Cesare, um sonâmbulo (Conrad Veidt) que dorme em um caixão e aparentemente prediz o futuro. Francis havia ido à feira com seu amigo Alan (Hans Heinrich), que tem sua morte prevista por Cesare ao visitar a “cabine” do velho doutor (daí a origem do nome do filme). Após o assassinato de Alan as suspeitas recaem sobre o Dr. Caligari e inicia-se uma luta contra o tempo para impedir novos assassinatos e provar a culpa do doutor, que revela-se alter-ego do chefe do hospício da cidade.

A astúcia do roteiro está no final, que muitos dizem ter sido criado sobre pressão dos produtores.(Se você ainda não viu o filme e não que saber o final, pule essa parte) Antes mesmo de obras como “Sexto Sentido” ou “Os Outros”, nas quais o fim muda completamente o sentido da história, Wiene transporta o narrador para o hospício, como um louco, sendo a primeira história um delírio e o Dr. Calegari, na verdade, um bondoso médico.

Uma das marcas que garantiram imortalidade à película de Wiene é o retrato surrealista do universo narrado por Francis, representando os delírios de um doente mental. Os cenários, criados em pedaços de madeira e pano pelos pintores expressionistas Walter Reimann e Walter Rohrig e pelo cenógrafo Hermann Warm (que hoje fazem parte do acervo do Museu do Cinema Henri Langlois, em Paris) são contorcidos, escuros e criam um ambiente de opressão, tal qual as catedrais barrocas. O tempo é desterritorializado, não há menções à época em que se passa o filme, assim como ocorre na maioria das obras expressionistas. A maquiagem é pesada e tudo remete a um mundo confuso, assim como era a Alemanha da pós-guerra, marcada pelos traumas impostos pela derrota na Primeira Grande Guerra, as crises econômicas e a ascendência do nazismo ao poder. O nazismo, inclusive, selou o destino dos dois atores principais: Conrad Veidt fugiu da Alemanha para se tornar um astro nos Estados Unidos (interpretando o nazista em “Casablanca”) e Werner Krauss permaneceu na Alemanha para se tornar então o ator principal do filme de propaganda anti-semita “Jud Suss”.

O “Gabinete do Dr. Calegari” é um aviso, uma premonição do mal que viria varrer a Europa nas décadas de 30 e 40. Assim como “O Vampiro de Dusseldorf” de Lang, o filme de Wiene expõe os efeitos do autoritarismo, totalitarismo e da forma de influenciar as massas através do hipnotismo. É uma obra crua, de um tempo em que o cinema era mudo, preto e branco e começava a buscar sua linguagem própria. Uma vitória para o diretor que conseguiu transmitir com imagens fortes toda a angústia, medo e opressão vividos na entreguerras. Mal sabia Wiene que diante do horror de Hitler, seu Dr. Calegari poderia estar ao lado de Rapunzel nas histórias de carochinha.

Assista o filme aqui.

Publicado em: on 9 Maio, 2009 at 9:16 am Deixe um comentário

Haiquases – 1*

O galo desperta,
inflama os pulmões
e acorda a manhã.

***

Pequeno como um haikai,
que surge e some dos dedos,
um desprezível haikai.

* O título foi sugerido por meu amigo Mário.

Publicado em: on 4 Maio, 2009 at 10:04 pm Deixe um comentário

Carta aberta ao SESC Pompeia

Prezado leitor,

 

 Sofri hoje uma aventura pra lá de desagradável em relação ao atendimento telefônico do SESC Pompeia.

 

 Com o intuito de pedir informações sobre o míni curso de Haikai e Sumiê, liguei para o SESC Pompeia às 18h25, pedindo para falar com o setor responsável. A telefonista transmitiu a ligação, mas eu fiquei 10 minutos a ver o trânsito da avenida sem que ninguém atendesse o dito cujo. Inconformado com o descaso de quem deveria ter atendido ao telefone ou com o sistema telefônico de vocês que não retornou a ligação para a telefonista, insiti. Liguei novamente, às 18h35, a telefonista atendeu e transmitiu a ligação, eu respirei, olhei o trânsito e aguardei por outros 10 minutos sem que ninguém do SESC Pompeia se dignasse a atender ao telefone.

 

 Sem melhores palavras para me expressar, digo apenas que o tratamento que recebi dessa unidade foi uma porcaria. Até entendo se você, leitor, se defender dizendo que este é o tratamento padrão do SESC e que eu, desse modo, não poderia exigir um tratamento decente, pois estaria me valendo de privilégios de que mais ninguém pode desfrutar. Ok, aceito a desculpa.

 

 Se não for pedir demais, eu – que só queria ter recebido um tratamento decente, nada mais – espero que você, leitor, seja educado e sensato para:

 

 1º) Não ignorar meu e-mail, fingindo que a meia hora perdida (20 de espera + 10 do e-mail) em nada influenciou minha noite;

 2º) Não usar as desculpas prontas do tipo “Infelizmente, Senhor, as vagas já haviam esgotado há muito tempo. Mesmo que tivéssemos lhe dado um atendimento decente, o Senhor não conseguiria se inscrever”, imaginando que eu polianamente aceite essa desculpa como justificativa para o atendimento indecente que me forneceram;

 3º) Reservar-me as duas inscrições para que eu as possa efetuar no prazo máximo de 24 horas (isso, sim, seria um privilégio, se eu estivesse solicitando esse “favor” sem que o atendimento do SESC Pompeia houvesse me prejudicado antes).

 

 Mas, caro leitor, sequer o conheço. Talvez você se comova, etimologicamente, e também fique indignado sem, no entanto, poder me dar razão, visto que se sente apenas uma peça dentro do baralho burocrático que permite aos funcionários fazerem sei-lá-o-quê enquanto o indivíduo espera ao telefone por longos vinte minutos sem sequer ter navios para ver.

 

 A vida é assim…

 

 Será?

 

 Atenciosamente,

 

 R L G

 

 

 

 

 

 

Publicado em: on 7 Abril, 2009 at 7:45 pm Deixe um comentário
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Viajando

 Existem diversas questões filosóficas. “Por quê?” Você me pergunta já exemplificando minha tese. A postura filosófica que mais aprecio é o gosto pelo saber daquele que não se acomoda perante frases e ideias alheias. O questionamento é a principal forma de nos opormos a ambientes massificadores e alienantes. Repare: quem de fato percebe a diferença entre uma opinião e um palpite? Entre um argumento e uma adjetivação? Dia desses uma amiga me perguntou o que eu estava ouvindo. Pensei em responder de cara o nome do músico gaúcho e deixar por encerrada a conversa. No entanto, tenho grandes dificuldades em manter um bate-papo meramente fático. Desejoso de algo menos superficial, resolvi investigar os motivos que me levaram a apreciar o músico que mais ando ouvindo ultimamente.  E para isso, resolvi analisar Viajei, de Vítor Ramil (Mande abrir em outra janela para que você possa ouvir a música antes ou depois de ler a continuação do texto).

 A canção é sintetizada já no primeiro verso, criando uma expectiva no ouvinte: viajou para onde? Para dentro de mim, responde o cancioneiro ao nos indicar o uso figurado do verbo; a  polissemia se anuncia. O devaneio é uma espécie de viagem. Felizmente, porém, o autor encontrou meio mais poético de traduzir o que acabei de dizer linearmente. Repare no modo como ele intercala as aliterações das oclusivas com a assonância alternada das vogais abertas e fechadas: “Ligado num segundo / no seguinte, desliguei / do que ia dizer”. É como se a tensão provocada pela combinação entre oclusivas e nasais simbolizasse o constante alerta (tique-taque, tique-taque) de quem está “ligado” (Minha dica: pronuncie atentamente os versos, sinta o que estou dizendo), e a partir da metade da última sílaba de “desliguei” o indivíduo fosse se “desligando”. Foneticamente, isso é sugerid0 pelo prolongamento que se dá na pronúncia do Ei, Ia, Eêê, (”desliguEi do q’Ia dizÊee“) como se tivéssemos uma sucessão de ditongos decrescentes induzindo uma pronúncia vocálica deslizante e suave.

 A segunda estrofe consegue manter o bom paralelismo entre som e sentido.  Primeiramente, temos o trocadilho Divaguei / Devagarinho, o qual sugere uma repetição que não acontece, eis que somos iludidos pelo cantar.  Na sequência, a assonância nasal parece conduzir o devaneio: “Devagarinho, evoluindo / Num carinho teu”. E a alternância binária de átonas e tônicas “perDIdo a ME perDER“, além de retomar “do que eu ia dizer”, parece anunciar o movimento certeiro que se verá na sequência: em  ”MAR aDENtro, NOIte aFOra / aGOra, aMOR” há o desenho fonético da onda do mar, como se estivéssemos num barco cruzando as ondas; esta é nossa viagem.

 Há outros traços significativos na canção, mas deixemos o didatismo de lado. Como cantou Camões, “melhor é experimentá-lo que julgá-lo”.

 p.s.: ganha um doce quem primeiro metrificar corretamente o verso camoniano.

 

Publicado em: on 1 Março, 2009 at 7:13 pm Comentários (10)
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Brincando com fogo

Tu descansas no quintal da casa da avó. Em poucos instantes, saberás dos perigos que se escondem nos vergeis. Uma borboleta, irrelevante a tudo isso, pousa na papila de uma flor. Queres tocá-la; de teus dedos, porém, ela não quer o toque. Teu hálito a espanta, algumas folhas a escondem. As mãos, curiosas, não a querem perder, e os dedos, ligeiros, serpenteiam em busca da presa. Ígnea dor na pele vermelha denuncia-se no grito: mãe, queimei a mão! A mãe, porém, não acredita. Não há fósforos ou fogo no quintal. A menina anda imaginando coisas, suspira à xícara de café. Tu, desapontada, deixas os olhos adentrarem-se nas folhas. E não é que a mãe não estava de todo enganada? Era, sim, um fogo falso, um fogo mentiroso, mas que igualmente queimava. Dizes tchau à taturana e sossegas o facho. A borboleta já não estava mais lá.

Espirre com cautela

Estou doente. E vocês sabem como a doença é algo constrangedor. É traumatizante, por exemplo, ter diarreia. Até o nome é incoveniente. Em grego, diarreia “é fluir por todos os lados” – prefiro nem imaginar como isso seria possível. Já em português, até fizeram o acordo ortográfico para lhe tirarem o acento. Mas para quê? De nada vale tirar o acento da diarreia, melhor seria tirar a diarreia do assento. Enfim… Outra enfermidade das mais incômodas é o resfriado.

 

Dia desses, estava eu num baile da terceira idade tomando meu suco de ameixa quando soou claro e imperativo um espirro daqueles. Uns tiveram pena, outros se comoveram, eu me assustei, mas sempre tem alguém educado que diz:

 

- Deus te proteja, meu filho!

 

A frase não poderia ser mais precisa. O espirro, etimologicamente, é o antônimo do sopro divino no barro adâmico. SPIR, vocês sabem, é “soprar” em latim. Deus soprou a Adão seu espírito, o espirro nada mais é do que um sopro escandaloso.

 

É difícil acreditar, mas tem gente que faz faculdade de espirro. Quero dizer: de sopro. Peraí, deixe-me explicar. Não disse que tem gente que faz cursinho, presta vestibular e, entre uma cerveja e uma festa, estuda a filosofia do espirro – imaginem como não seria a tese entitulada O feudalismo em Branca de Neve e os sete anões pela perspectiva do anão Atchim ou O resfriado na Idade Média: assim começou a inquisição. Nada disso. Lembrem-se: como é sopro em grego? Psyque. Psicologia é, em primeira instância, o estudo do sopro divino, o estudo do espírito, o estudo da alma. Sem mistérios, certo? Se algum dia, na fila do pão ou no ponto de táxi, alguém lhe perguntar sobre com que nomes o livro de Aristóteles Peri Psykhês foi traduzido, você certamente saberia identificá-lo como o De Anima, na tradução latina, ou o Da Alma, na tradução portuguesa. E isso sem que ninguém precise lhe soprar a resposta.

Publicado em: on 25 Fevereiro, 2009 at 4:53 pm Deixe um comentário
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