Não seja

 Certa vez, uma amiga publicitária conseguiu convencer-me da importância social da propaganda, afinal – segundo ela – é importante que as empresas possam dialogar direta e indiretamente com o consumidor. Exemplo do primeiro modo são as fotos com que o Ministério da Saúde estampa embalagens de cigarros; exemplo do segundo são aquelas imagens de viris cowboys fumando na fazenda, a qual aliás pode até não transmitir uma ideia sincera, mas que deixa um ar de poesia no ar, ah isso deixa.

 Mês passado, estava eu perto do metrô Vila Madalena, quando me deparei com uma interessante propaganda da revista Veja.

 

 A maior parte dos meus amigos acha que essa revista serve apenas para higiene pessoal, outros são menos benevolentes. Já eu assumo que leio com gosto o André Petry e o Roberto Pompeu de Toledo. O que achamos da revista, no entanto, não interessa. O intuito desse texto é analisar a dita propaganda.

 A revista em questão lançou uma série de frases imperativas que cheiram a autoajuda: Seja ético, seja indispensável etc. Há sim um tom de pieguice que os de boa memória não demoram a associar a um pretencioso e improvável manual de ética. Isso, porém, também pouco importa. O que os leitores ou não leitores pensam da revista não vem ao caso; a falta de decoro ou bom gosto em suas formas de propaganda, idem. O que convém observar é a frase em questão:

SEJA CONECTADO é um misto de imperativo com voz passiva, equivalente a ”Deixe alguém conectar você”. Sendo a frase em questão propaganda oficial da revista em questão, não é exagero pensar que o agente conectante seja a própria revista. Poderíamos então alterar o slogan para “deixe-nos conectá-lo”.

 Uma revista que assume o papel de manipuladora, sem dúvida alguma, merece elogios tanto pela coragem quanto pela cara de pau.

 P.S.: um amigo meu, defensor da revista, argumenta: “Não há nada de mal em a revista conectar o leitor ao saber, por exemplo”. Talvez, mas em todo caso, continuo achando que o indivíduo tem de ser independente a ponto de ele mesmo, ativamente, estabelecer suas conexões. Mas, enfim, quem quiser ser conectado… que seja.

 

Publicado em:  on 23 Novembro, 2009 at 5:14 pm Comentários (3)
Tags: , , , ,

Ler e transformar

Rafael Z.

A leitura é algo de elevada importância para o ser humano. Por meio dela, entramos em contato não só com informações oriundas das mais diferentes culturas, das mais variadas épocas, mas também com as mais diversas formas de conhecimento. Todavia notamos que, cada vez mais, o hábito da leitura torna-se incomum, impopular. Isso traz sérias sequelas à formação intelectual das pessoas, refletindo também por toda sociedade.

Ninguém nasce apto à leitura. Se o primeiro contato com a língua é algo que nos ocorre de maneira automática (estamos sempre envoltos por códigos e fenômenos da linguagem), a qualidade da leitura requer dedicação, tempo e concentração – cultivá-lo, portanto, não é fenômenos nada espontâneo. De fato, a formação de leitores depende de estímulos e incentivos que demonstrem a importância da leitura. Ao constatarmos que o número médio de livros lidos por habitante no Brasil é baixo quando comparado a países como Alemanha, Chile ou Argentina, por exemplo, percebemos que, em nosso país, o hábito de ler não é devidamente impulsionado.

A falta de leitura gera inúmeros problemas: ao passo que é reduzido o consumo de literaturas (sejam científicas, literárias etc.), restringe-se a gama de informações à qual tem acesso a população; limitam-se o conhecimento e a capacidade de reflexão acerca dos mais variados assuntos; condena-se um grande número de pessoas à ignorância. O final desse ciclo tende a criar uma situação em que há uma massa de pessoas privada de uma consciência reflexiva mais aprofundada, incapaz de ser um elemento transformador de sua própria realidade.

A leitura, por sua vez, oferece ao ser humano a oportunidade de, a partir dos mais variados pontos de discussão, desenvolver a reflexão crítica. Assim, conforme entramos em contato com um grande número de literaturas, ampliamos nossas bases intelectuais e, podemos de fato, posicionarmo-nos frente a determinado assunto e compreendermos o contexto em que estamos inseridos – para perpetuá-lo ou contestá-lo, como seja.

A leitura é importante – fato incontestável. Contudo, seu poder transformador certamente não é algo muito difundido. Com efeito, a leitura, ao libertar da ignorância, ao fomentar o pensamento crítico, reflete possibilidades de mudanças na realidade individual e coletiva das pessoas. Portanto, estimular o hábito da leitura – com doação de livros, bibliotecas itinerantes e discussões de grandes obras, por exemplo – pode ser um grande passo no sentido de transformar a realidade adversa que se apresenta a inúmeros habitantes do nosso país.

Publicado em:  on 15 Novembro, 2009 at 8:48 am Deixe um comentário
Tags: , ,

A estante do seu Luís

Certa vez numa entrevista, percebi assim meio de lado o escritor definindo o que seria a função do livro:

- Abrir-se, transpor o mero papel, escapar das linhas e do mofo, arejar as idéias de seu autor, ser solto, ser livre.

Não sei se captei o que deveria captar ou se insinuei saber apenas o que me interessava. De todo modo, isso é o que menos importa. A história começa num outro tempo, mas no mesmo ritmo. Digamos que num velho sebo paulistano, daqueles bem tradicionais; fuçava eu pelas estantes bagunçadas em busca de uma velha Bíblia do padre Antônio Pereira de Figueiredo; indicação valiosa de um amigo também fotógrafo cheio de virtudes o qual lamentava ter-se fechado a oportunidade de comprá-la por módicos quinhentos reais. Como também me considero uma pessoa simples, sem complexidades éticas, resolvi ajudá-lo a pagar tal quantia.

- Duzentos? Ótimo!

A reserva feita logo às dez da manhã já me garantia um adequado lucro que ainda poderia aumentar de duas formas: encontrando um exemplar mais barato ou expandindo um pouco os quinhentos que meu ingênuo amigo considerava oportunos. Fosse uns cem, duzentos a mais, sabe ele, a porta continuaria aberta. A vaidade, talvez diga a Santa Igreja, não é um bom vício; já a sapiência que multiplica peixes e moedas deve ser uma casta virtude.

Um exemplar do Bernanos, dois do Corção, um autografado do Tolentino, cada qual por duas notas miúdas!?  O seu Luís deve ter perdido o jeito com a coisa. Mas o importante, ei-lo ali numa encadernação amadeirada, sem contraste com a estante velha, em harmonia com o bolor das paredes, o melhor dos cães comuns não o encontraria.

- Meu chapa, aqui na minha mão. Fiz esforços enormes, gastei o que não devia, tive de pagar comissão, mas consegui! – Não sem um pouco de rubor imaginava-me pronunciando essas palavras. Afinal, sou uma pessoa tímida. E humilde.

Assim abaixei-me para folhear aquele pequeno arbusto de riquezas. Histórias de Caim, Judas, os irmãos de José; passeio aleatoriamente por essas elevações até que… A-ve-Ma-ri-a! (pronunciada em cinco sílabas como um palavrão de espanto, de alegria). Já foi dito que a árvore plantada junto aos riachos dá seus frutos no momento certo, e que pomo mais precioso que um catálogo legítimo e em primeira edição da famosa e desejada Leica M3? Por este sim eu daria umas notas bem gorduchas. Nem bem enquadrei o livreto, focalizei-o, adaptando-me as pupilas para absorver cada luminosidade preciosa daquelas páginas a quem rezas e mais rezas dediquei nos últimos quinze anos. Que lindo compêndio sacro! Que delicada e angelical engenharia! Imagino o feliz mensageiro incumbido de trazer o registro desta adâmica criação de ferro e carbono, implorante por ser libertada daquela saleta amontoada por criações de nível inferior; o bom livro merece melhor companhia.

Justo nesse momento, seu Luís fora atraído pelo chamado de um outro cliente que pedia informações sobre o livro que Aristóteles fez a seu filho Nicômaco, algo, aliás, que pouco me interessava naquele momento. Como as coisas são curiosas: o barulho que o afastou, a mim parecia sugerir: que falta de confiança é esta que lhe faz abrir o livro antes de tê-lo para si? Concordei com o recado, compreendi o livreto entre o velho e o novo testamento, saquei os duzentos e pu-los sobre a mesa – felicidade desmedida numa alegria disfarçada. Dali a poucos instantes, seu Luís chegaria com seu olhar míope e o sorriso safado de quem lucrou em cima de mais uma obra superfaturada. Abstenho-me de avaliar sua cretinice, mas do meu amigo a quem serão transferidos os juros sinto pena. Mas, para dizer a verdade, não muito.

A vaidade, a cobiça, meu caro… Há quem goste de desejar os vazios.

Um dia bom

 A primeira boa notícia foi saber que meus alunos foram premiados na feira cultural do colégio.
 A segunda foi ganhar uma ilustração para meu haiquase:

o galho seco
sustenta o corvo

Por Ruth Carvalho
Por Ruth Carvalho
Publicado em:  on 23 Outubro, 2009 at 10:04 pm Deixe um comentário

*

Não é a vida que define a morte; a morte que define a vida.

“Ele pega no meu pé”: desculpa típica de quem tropeça por conta própria.

Não existe cultura sem cultivo.
 
O preconceito é uma grande defesa contra o conhecimento.

Cultivando o pensar

E a virtude? – pergunta-se Sócrates. O tutor pode ensiná-la a seu discípulo ou seu papel consiste apenas em estimular a virtude que seus pupilos já possuem? Valendo-me dos mesmos operadores lógicos, mas focalizando outro objeto de ainda maior importância, pergunto-me: E o pensar? Alguém pode ensinar outra pessoa a pensar ou se trata de algo a ser estimulado?

Antes de irmos diretamente a uma síntese, e para que esta não seja apressada e superficial, vale a pena analisarmos ambas as hipóteses.

O educador que pretende ensinar seu aluno a pensar, indubitavelmente, corre o risco de apenas transmitir-lhe conceitos, pressupostos e ideologias que lhe servirão de cabresto e guia, sem nunca traduzirem-se, de fato, em ferramentas para uma desejável independência. No entanto, também temos de reconhecer a importância da elucidação de conceitos, pressupostos e ideologias para uma correta compreensão das ideias e seus contextos.

Na teoria é fácil, bastaria explicitar, por exemplo, numa aula sobre Luís Vaz de Camões, o contexto histórico em que ele viveu, o meio social que ele frequentou, as correntes filosóficas e estéticas de seu tempo… mas nada disso, porém, serve para identificar a identidade do poeta. O que o distingue daqueles de seu tempo não se mede numa análise genérica do grupo, mas sim pela leitura atenta do que o poeta escreveu. Sim, de fato, mas não podemos nos esquecer de que todo homem é produto de seu meio… São inúmeros os modos de se analisar um poeta. O educador está preparado para escolher e indicar o melhor modo analítico?

Por outro lado, muitas vezes acredita-se estar estimulando o pensamento alheio, valorizando-lhe o senso crítico e a independência, quando na verdade o professor apenas abandona as rédeas da situação, deixando o desenvolvimento intelectual do aluno ao deus-dará, como se toda tentativa de elucidação fosse, automaticamente, um modo de coibir a autonomia. Não tenho dúvida alguma de que essa postura tende a ser mais maléfica do que a retratada nos dois parágrafos anteriores.

Hannah Arendt, se não me engano, foi quem melhor analisou o perigo de hipervalorizarmos o novo. O perigo de darmos aos jovens imaturos e despreparados, o poder de decidir o que fazer com a cultura – como se essa grande construção coletiva pudesse ser jogada ao lixo sem mais nem menos.

Como todo educador sabe ou deveria saber, seu trabalho se resume numa palavra: desafios. Encontrar um meio não de transmitir cultura, mas de ensinar como cultivá-la, com todo amor, paixão e dor que a empreitada exige. Encontrar um meio de, sem ser benevolente, valorizar e estimular os achados, as sacadas intelectuais do aluno. Ou, mais do que tudo, o educador deve se ver – ele também – como um estudante em busca do conhecimento. Só assim, enfrentando as dificuldades que o crescimento intelectual nos impõe, gozando os prazeres das metas atingidas e ultrapassadas, o educador estará preparado para compartilhar essa grande dádiva – ou melhor: conquista – que é o pensar.

 

Publicado em:  on 6 Outubro, 2009 at 12:55 am Comentários (7)

Nunca contentar-se

 

A contenção, o autoconhecimento, a humildade, eis os pilares em que o indivíduo deve se apoiar em busca de proteção e segurança. A contenção nos ensina a segurar o ímpeto, a respirar fundo antes de qualquer ação precipitada. Esse intervalo de tempo, essa lacuna entre o desejo e a decisão, permite ao indivíduo uma melhor aferição de si, de suas forças, de seu poder. A conclusão lógica desse processo é a compreensão daquilo que está a nosso alcance; saber até onde a mão vai é essencial para evitarmos esforços vãos. Conhecer a si próprio é conhecer seus próprios limites.

Nem todo indivíduo, porém, aprecia a vida em cativeiro. A domesticação não lhes cai bem. Excesso de proteção, eles percebem, é igual a medo em demasia. O melhor autoconhecimento é aquele que se reconhece insuficiente para delimitar o que pode ou não pode o indivíduo. A contenção, analisada dessa forma, é a renúncia à investigação dos nossos poderes, é o descaso com aquilo que vulgarmente chamamos de potencial. Rebaixar-se, aceitar passivamente as conquistas do passado, sem nelas enxergar um estímulo a novos desafios, é desrespeitar o jovem ambicioso que já fomos um dia. A pretensão, por si só, não é um defeito. Pelo contrário, pretender um futuro melhor, sonhar com mudanças que engrandeçam o indivíduo é, ou deveria ser, pré-requisito para que continuemos vivos. Por isso mesmo incomoda saber que muitos confundem ambição com inveja. Enquanto esta se caracteriza por uma postura complacente (invejoso é quem vê, com maus olhos, o mérito alheio), aquela prima por um comportamento ativo (ambicioso é aquele que não teme encarar novos caminhos). Dentro de um contexto que procura domesticar o indivíduo, mais do que nunca é importante relembrar a famosa máxima latina: errar, aventurar-se por caminhos desconhecidos, é sem dúvida alguma humano.

Publicado em:  on 26 Setembro, 2009 at 8:17 pm Comentários (2)

Revisitações idealizadas

[exercício redacional: dissertação básica]

A casa dos avôs, o pátio da escola, as festas com a família, até mesmo o gosto das frutas parecia diferente. Conforme se folheiam as fotos do velho álbum, diversas lembranças vão sendo retomadas – reconstruídas? – na memória. Poucas são as pessoas que não sentem falta da infância. Isso, porém, talvez não seja resultado da vivência de épocas deslumbrantes, mas sim do contrário.

O presente, só este ínfimo e fugaz espaço de tempo, nos pertence. O resto é abstração, é aquilo que já nos pertenceu ou que irá talvez nos pertencer. Em todo caso, no presente do indicativo de nossa vida, só temos mesmo esse instante, e é a ele que devemos devotar nossas preocupações e empenho.

Muitos indivíduos, porém, parecem viver no passado. A distância temporal parece fazer com que eles não mais percebam nitidamente que aquela época também tinha seus desagrados. Mas o pior de tudo é saber que, por melhor que ela tenha sido, ela já foi, não existe mais. Se o indivíduo quiser retomar aqueles prazeres, se quiser reviver aquelas situações, é imperativo que ele volte a focar seus interesses no presente. Só assim, e não esperando um milagre divino, ele poderá viver o tempo que de fato ele possui.

É verdade que as abstrações são importantes, que a memória deve ser preservada. No entanto, o que não pode acontecer é um fetiche pleno das lembranças. No final da vida, provavelmente, elas serão nosso bem mais precioso, mas até lá o melhor a fazer é garantir que nossas boas recordações não venham apenas de um pequeno intervalo de nossa vida.

A casa do meu avô.

[exercício redacional: relato]

Poucas são as pessoas que não sentem falta da infância. Não digo da infância toda; ir obrigatoriamente às aulas de catecismo, ficar de castigo, perder a tampa do dedão jogando bola na rua são, de fato, experiências que não gostaríamos de reviver. No entanto, mesmo os desprazeres, vistos agora de grande distância, parecem ter seu colorido, seu encanto.

Foi na casa do meu avô, por exemplo, que tive o primeiro contato com outras formas de vida: lembro-me de ficar olhando diversas folhas contra o sol – aquilo que lhes parecia veias a lhes carregar a seiva sugeria-me mesmo um percurso, uma espécie de mapa rodoviário que eu já começava a folhear com interesse. Foi lá também, na casa do meu avô, que pela primeira vez vi – e que brinquei com – gatos e cachorros. Talvez tenha sido ali que eu percebi que uma criança pode ser ruim com os mais fracos. Não tenho orgulho dessa lembrança, mas acho que esse episódio me ajudou a corrigir uns defeitos.

Naquela época eu sempre jogava bola no campo à tarde. Às vezes estávamos apenas eu e um amigo. A gente ficava batendo falta, chutando a bola um contra o outro. Do lado do campo, havia um riozinho do qual nunca conseguíamos tirar peixe algum. À noite, porém, a diversão era garantida. Como havia muitas árvores e alguns terrenos baldios perto de casa, os meninos gostavam de brincar de esconde-esconde.

Hoje talvez o campinho não exista mais. Algumas árvores podem ter caído, brotos podem ter sido plantados, casas podem ter sido erguidas naqueles terrenos. Ou talvez não. Pouco importa. A infância não são os lugares onde a gente viveu, mas sim as situações, o contexto todo. Talvez a casa de meu avô ainda exista. Mas ele não está mais lá, e aquele menino que o visitava não é mais o mesmo.

Velório

Não, Isaac não era judeu; o nome bíblico lhe fora dado por uma avó religiosa que não entendia muito de religião. O paradoxo era compreensível por aquelas bandas, afinal quando jovem ela não conseguiu ou não pôde frequentar a escola por mais de três anos; uma semi-alfabetização que lhe permitisse a leitura de títulos e manchetes, e manejar duas  das quatro operações já era o suficiente. Mesmo sendo uma fiel sem conhecimento de causa, havia conseguido certa influência naquela pequena cidade do sul de Minas, ao menos em relação ao povo pobre que dependia, em inúmeras ocasiões, da pouca, mas bem ofertada ajuda daquela senhora. O tempo não a tornou uma pessoa sábia, tolerante ou amiga, mas isso nunca lhe impediu de ser ouvida pelo séquito que ano após ano ia se ajuntando em torno dela por meio do compadrio.

- Aposto que é um afilhado da senhora – alguém disse.

Mais do que um dos tantos afilhados, era seu neto de dez anos – o primogênito, quase um filho. Como sua avó não tivera filhos (casou-se com Benedito, e comungou suas três filhas), Isaac acabou recebendo uma predileção contra a qual um dia iria se rebelar. Mas isso não faz parte da história. Ambos acabaram de chegar à casa de Nicolau, tio materno da avó que estava sendo velado. Nicolau, sim, era uma pessoa de grandes posses. Ainda que também não tenha frequentado escolas e tirado diplomas, ele conseguiu, terreno após terreno, administrar uma grande fazenda de gado leiteiro. Se a produção pecava pelo desperdício e falta de planejamento, ao menos conseguiu lhe dar uma vida muito mais abastada que a de qualquer outro jovem que cresceu junto consigo.

Dia de São João: a maior parte das visitas teve a gentileza ou o cuidado de permanecer na casa, mesmo sendo dia de uma das melhores festas do ano. Marcelo, o filho mais velho, cumprimentava a todos os presentes com uma frequência ameaçadora:

- Muito lhe devo. Meu pai não me deixará esquecer de sua amigável presença. Os amigos a gente não abandona – dizia dando um leve e preciso tapa nas costas dos criados, como se marcasse de vista e tato aqueles que mereceriam mais atenção.

Tudo ali cheirava a marasmo: no céu, nuvens grossas e lentas; na terra ao longe, bois pastavam perto de uma lagoa; dentro da casa, as pessoas regurgitavam elogios e orações ao morto. Isaac não se percebia entediado; fora brincar de seguir formigas: desciam a goiabeira com uma grande folha às costas, cruzavam o quintal, despistando galinhas e pisadas, adentravam por uns galhos secos caídos e desapareciam num canto de terra. Depois, com os olhos fechados, o menino imaginaria a continuação da busca…

- Isaac, meu filho, venha conhecer sua prima.

E Isaac conheceu sua prima Luísa, de treze anos. O sorriso, ingênuo ou malicioso, com que ela o encarou foi forte o bastante para lhe despertar um misto de simpatia e temor.

- Você gosta de observar formigas?

Envergonhado, Isaac não conseguiu responder.

- Venha, vou lhe mostrar umas plantas bem bonitas. Se dermos sorte encontraremos alguns insetos curiosos.

Mãos dadas à prima, caminharam longos passos em volta do quintal, longe da vista de qualquer um. Não encontraram nenhum inseto especial, mas Isaac não pensaria em reclamar da sorte. A prima lhe mostrou uma jabuticabeira, pés de morango, as flores do maracujazeiro…

- Nunca vi algo tão bonito.

- É bom se acostumar, mocinho.

- Mas se eu me acostumar, perde-se a graça, não é verdade?

- Quem lhe falou isso?

- O padre. Ele disse que dia após dia a gente precisa treinar os olhos para enxergarem algo de diferente. Que a partir do momento em que a gente se acostuma, a vida perde a graça e a gente, o desejo de viver. Deus, certamente, não gostaria disso, ele me contou.

- Que padre é esse?

- Ele rezava missas perto de casa, não reza mais. Teve uns problemas, foi embora mês passado. Gostava de conversar com ele.

- Homem sabido. Gostei dessa frase. Você é um rapaz sabido, mais do que os que eu conheço.

- Sério?

- Claro, meu bem. Venha, posso lhe ensinar uma coisa?

- O quê?

- Bonita esta flor, não?

- Sim, muito bonita.

- Sabia que maracujá é a flor da paixão? Foi meu professor de ciências que me contou.

- Por que esse nome?

- Que importa? Tome – E Isaac corou ao receber tão delicado presente.

No céu das cinco e meia alguns feixes vermelhos anunciavam o prematuro anoitecer da mais invernal das noites. Não seria oportuno ficarem os dois sozinhos naquele vazio. Luísa aproximou os lábios do ouvido de Isaac e sussurrou:

- Tenho umas histórias muito interessantes para lhe contar. Histórias da roça.

E assim que voltaram para o velório, Luísa logo tratou de dividir-se às outras crianças – todas menores, de uns cinco, sete anos. Isaac não apreciou o distanciamento da amiga.

- Ora… – pensou, sem conseguir desenvolver uma continuação.

- Que tal um café, jovenzinho? – ofereceu uma velha senhora que acompanhava a cena.

- Não me permitem. É bebida para adulto.

- Você precisa ficar desperto. Afinal, estamos prestando honras a seu tio-avô Nicolau.

E Isaac aceitou, tragando de uma só vez a meia xícara de café amargo que lhe serviram.

- Coma isto!

- Hortelã?

- Não se esqueça de beber meio copo d’água. Ou você quer que todo mundo veja matinhos verdes nos seus dentes?

Isaac, um pouco assustado pela voz imperativa e pelo rosto envelhecido daquela senhora, obedeceu. Seria uma espécie de bruxa? Padre Ludovico, certa vez, havia conversado com ele sobre o assunto. Antigamente, era provável que muitas mulheres tenham sido injustiçadas; afinal como reconhecer uma bruxa? Se elas existiam e eram de fato poderosas aliadas do mal, talvez pudessem se confundir facilmente com uma camponesa qualquer. É difícil distinguir o certo do errado.

Sem ter mais o que fazer, Isaac sentou-se nas raízes de um limoeiro, de onde tinha vista privilegiada do quintal. Armaram uma grande fogueira em torno da qual o povo aquecia as mãos, pequenas doses de cachaça eram servidas, uma carroça trazia pães que a cozinheira iria servir dali a pouco, três capiaus entoavam cantigas à viola. Em sinal de respeito, evitava-se a bebedeira e riso nos rostos, menos as crianças, alegres e vívidas com a presença cativante de Luísa. O que essa prima tinha de especial? Isaac sentia algo em seu corpo, como se órgãos despertassem para a vida – sentiu em sua barriga o movimento e o calafrio de partes que sequer suponha possuir. Fechou os olhos, o calafrio subiu para o peito, sentiu a testa transpirar. De longe, Luísa lhe sorriu. Deve ter corado, como saber? Ele não tinha o costume de ficar acordado tanto tempo; a noite crescia, a penumbra invadia-lhe o espírito, ele sabia – ou desejava – que algo iria acontecer.

Publicado em:  on 18 Setembro, 2009 at 11:10 pm Comentários (1)